Blog do Doutor Fofinho

"Tudo começou há algum tempo atrás na Ilha do Sol..." Há muitos anos eu montei esse blog, dando o nome "Le Cul du Tabou", inspirado por uma amiga, para falar sobre o tabu das coisas. Ganhei muitos seguidores, mas desde 2018 não escrevi mais nele. Estou retomando, agora com novo nome, o "Blog do Doutor Fofinho", muito mais a minha cara, minha identidade. Sejam bem vindos.

Thursday, July 23, 2026

COZER E ROER


Por Marcelo Niel


O algoritmo cibernético traz muita coisa ruim pra existência humana, eu sei. Talvez, na maior parte do tempo, ele se configure como um gérmen da maldade humana que brota em qualquer canto, sem nem perguntar, sem nem pedir licença. 


Mas ele não produz SÓ maldade.


Tem algumas reles fagulhas que pipoqueiam e nos tocam suaves, uma queimadinha gostosa que não produz dor intensa, mas avisa que chegou. Eu, filho do dono do fogo, passei a vida toda brincando de tocar o fogo e de tocar fogo nas realidades da vida. 


Foi uma fagulha cibernética dessas que invadiu minha tela, mostrando o trabalho do Patrick Torres, um jovem escritor que também é médico.


Eu gosto de acompanhar a trajetória de jovens médicos e médicas pretos e pretas, que vieram da pobreza, através dos programas governamentais de incentivo e que vão conquistando um espaço social e econômico que por tanto séculos foi negado aos seus antecessores. 


Patrick é um gênio literário. (Eu quero reler essa frase daqui uns 20anos e comprovar que eu estava certo)


Eu li seu primeiro livro “Seca, bebe sangue a terra” numa tacada só e amei. E logo depois eu me animei a ler o segundo, “O cozer das pedras, o roer dos ossos”, mas o burnout que eu tenho vivido me impediram de continuar. Cheguei a pensar que não estava gostando do livro e decidi abandonar a leitura.


Ele ficou lá, na minha cabeceira, fez algumas viagens comigo, banhou-se de café, teve página amassada, e permanecia abandonado em sua função de ser lido. Mas numa pequena pausa que pude tirar de alguns dias, retomei a leitura. Não lembrava de nada que já tinha lido e resolvi começar do começo.


Sankofa.


E eu fui caminhando com ele, ansioso por cada nova etapa, cada novo cenário, reavivando memórias de um sofrido passado meu que tantos desacreditam. 


“Cozer” conta a história de um garoto que, deflagrando uma desgraça, abre uma fenda  irreparável que faz brotar desfechos impensáveis. 


E daí eu me lembrei daquele dia: 23/12/1985.


Voltando  de uma viagem proibida pelo meu genitor, eu, minha mãe e meus irmãos pequenos, chegamos em casa à noite recebidos pelos gritos do carrasco.


“Puta, vagabunda, desgraçada, maldita”


E seguiram-se xingamentos, ofensas mútuas, gritarias.


O carrasco subiu as escadas do sobrado, proferindo ofensas, amaldiçoando a mulher que odiava, o filho que rejeitava e desconhecia como filho legítimo, apesar de ter dele a sua cara.


Minha mãe subiu atrás dando corda, dando lenha, dando gasollina. 


Meu irmão mais novo tinha oito meses de vida e chorava assustado no chiqueirinho na cozinha.


Minha irmã de quatro anos olhava, muda, asssustada e de olhos arregalados. 


Subimos, eu e ela, como se pudéssemos interromper aquele ciclo de violência apenas com nossos olhares assustados. No quarto, testemunhávamos  aquele vendaval de ódio e fúria. O carrasco de repente olhou para nós e disse:


“Fiquem aí que eu vou matar a sua mãe”


E saiu carregando a mulher pelo pescoço, socando sua cabeça. Minha irmã olhou pra mim, espantada 3 suplicante. E eu atravessei o corredor, fui ao quarto deles e, enquanto o via sacudindo a mulher feito um trapo, estufei o peito, coloquei as mãos na cintura e gritei:


“Pra bater em minha mãe, vai ter que bater em mim primeiro” 


E o carrasco veio. E aceitou a proposta. 


Eu, com onze anos enfrentava um homem feito, corpulento e cheio de ódio. 


Eu, sem calcular, mas rapidamente tramando, com as unhas cravadas no seu peito, desejava furiosamente chutar suas partes, tirar-llhe as forças e lançar-lhe pela janela do quarto.


Parricídio.


Eu perdi as contas de quantos socos e bofetadas eu levei, batendo a cabeça no chão. Numa delas, bati a cabeça na fechadura do armário e sangrei um pouco. Mas ninguém parou. Mesmo apanhando, eu gritava, rezava pai-nossos e credos, chamava-lhe de obsediado, clamava o quanto lhe odiava.


Minha mãe não fez nada. Ficava sentada, de longe,  pedindo para ele parar. 


Tivemos que conviver com o dia de natal realizado em casa, parentes protestantes, evangelho no lar e ter que trocar presentes mútuos com meu amigo secreto: ele, o carrasco.


Tivemos que conviver com meses em desespero com a ameaça de que ele iria embora e nos deixaria passando fome. 


Minha mãe moveu um exército de contenção, entre familiares e amigos que o impedissem de ir.


Eu de um lado desejava, mas do outro temia a promessa da miséria. 


Eu sei que salvei minha mãe de ser assassinada. Mas ela nunca me agradeceu ou reconheceu isso. Muito pelo contrário. Ela, anos depois, disse a uma pessoa que vivia muito bem com seu marido, era eu quem não sabia compreender e aceitar o jeito do carrasco. 


Às vezes me vem à mente o que teria acontecido se ele tivesse morrido. 


Teria eu sido mandado para a Febem? 

Teria eu sido considerado um monstro cruel?

Teria eu conseguido terminar meus estudos? 

Teria eu me formado médico?


Às vezes me vem à mente o que teria acontecido se minha mãe tivesse morrido.


Como seria ser criado por assassino?

Como seria a nossa vida submetido à sua violência? 


São perguntas sem respostas. 


Lendo “Cozer”, inevitavelmente essas lembranças emergiram. Ao terminar o livro chorei de emoção e continuei emocionado.


Obrigado Patrick, por emprestar um pouco da sua alma através de suas letras. Caíram duas lágrimas, uma de cada lado. Desceram juntas pelo meu rosto. Mas meus olhos continuam marejados. 


0 Comments:

Post a Comment

<< Home