Hoje é seu dia.
(Eu escrevi esse texto no dia 22/04/2026, mas não havia postado até então)
“Ontem eu tive esse sonho / nele encontrava com você / não sei se sonhava o meu sonho / ou se o sonho eu eu sonhava era seu / Um sonho dentro de um sonho e ainda nem sei se acordei / nesse sonho que era imagem e som pra saber o que foi que aconteceu” (Sonho, de Joyce Alane)
Hoje é dia do descobrimento. Mais uma mentira que nos contaram. Porque a gente cresce aprendendo mentiras e segue acreditando nelas e mesmo que alguém nos desvele a verdade, podemos escolher nos manter alienados.
Terra plana, vacina com chip, mamadeira de piroca, nazismo de esquerda, democracia racial e o descobrimento do Brasil. Tantas inverdades que não cabem num primeiro de abril só. É por isso que inventaram o 22, porque é quatro vezes o dia da mentira.
Um amigo postou que hoje é o Dia da Terra. Olha outra falácia, bem no 22. Daí eu escrevi:
“Aqui hoje é o Dia da terra roubada!”
E ele:
“É sério isso?”
Eu me ri e expliquei. Morando em Porto Seguro, aprendi coisas que nunca vi em São Paulo, como um grupo de pessoas que tem um orgulho extremado por esse dia. Tem até slogan da prefeitura:
“O Brasil nasceu aqui”
Um colega de trabalho sugeriu que todos nós que morávamos na “Costa do Descobrimento” deveríamos adotar o sobrenome Cabral, em louvor a Pedro. Veja, eu já gastei uma nota tirando o sobrenome de um agressor, dado a mim no dia do meu nascimento sem poder de escolha, por que diabos haveria de adotar outro?
Resumindo: 22 de abril, o dia de uma grande mentira.
E falando sobre a mentira, eu fico pensando em toda a engrenagem da mentira e dos mentirosos. Mas eu não posso culpá-los ou transformá-los; preciso aprender a me manter longe deles.
Eu nasci de pais mentirosos. Eu cresci vendo-os mentir, um para o outro, para nós filhos e para as pessoas as redor. Até minha origem, minha concepção, meu nascimento, tudo foi tratado de uma forma mentirosa. E a grande mentira, a maior de todas, era alegarem que mentiram para proteger.
Isso me fez ter asco da mentira.
E, embora não gostasse da mentira, percebo que acabei tendo, na vida, sobretudo afetiva, um certo “tropismo” por pessoas mentirosas. Eu namorei e casei com algunsmentirosos, eu estive sob o comando de sacerdotes mentirosos, e tive amizades significativas com mentirosos.
E eu sou filho de Xangô, o Orixá da verdade.
Sim, eu já menti. E me arrependi muito por isso. Porque depois eu senti a navalha da verdade rasgando a carne da existência.
Dizem que Xangô faz fogueira com os ossos do mentiroso. Não desejo, mas apreciarei o evento. Porque a verdade é um caminho tão reto e me parece tão simples de ser seguido. Porque quando a gente escolhe esse caminho, as coisas passam a ser simplesmente o que são, sem excessos ou faltas, sem ilusões.
Hoje se passaram muitos dias do dia 22, o novo dia da mentira.
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