JÓIAS PERDIDAS RESGATADAS NO TEMPO
Neste final de semana eu viajei a São Paulo para estar ao lado de uma grande amiga que iria passar por um procedimento de saúde delicado, desses que levam as pessoas que amamos embora.
Ela é uma amiga muito amada, uma dessas pessoas que considero verdadeiras irmãs que encontrei e escolhi para sempre. Por intempéries do destino, ficamos mais de dez anos sem nos ver. Mas eu tinha certeza que um dia voltaríamos a falar, como se nada tivesse acontecido. E assim ocorreu em 2020, no começo da pandemia. Ela curtiu um comentário meu contra o presidiário #elenao e daí por diante restabelecemos nosso contato como se nunca tivéssemos ficado tantos anos afastados. Ela planejava uma viagem surpresa para me visitar em março, mas a pandemia derreteu tudo.
Veio meu coma e ela esteve presente no grupo de amigos que se reuniu torcendo pelo meu retorno e resolvendo algumas coisas práticas e, depois do hospital, já vacinado, nos encontramos. Ela disse o quanto me amava e pediu perdão por ter se afastado, mas eu disse que estava tudo bem, porque eu entendia suas razões. Às vezes precisamos nos guardar embaixo de cascas protetoras para sobreviver à dureza da existência.
Felizmente tudo está correndo bem e tudo indica que estaremos comemorando sua vida por muitos e muitos anos. Mas foi inevitável me sentir apreensivo; foi inevitável relembrar o que sofri durante minha internação e durante minha recuperação, coisas que só quem viveu isso na pele poderá entender.
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Comentando sobre a situação dela com meu pai-de-santo, relembramos o quanto foram difíceis para ELE quando eu estava em coma, à beira da morte. Ele havia acabado de perder sua avó, há menos de um ano e lá estava eu, um filho e um grande amigo, na “corda bamba de sombrinha”.
Seu Marinheiro veio em terra uma vez, tomou seu corpo para dizer que tudo ia dar certo e que eu ia sair do coma, porque ele dizia: “Eu não vou conseguir enterrar meu amigo”.
Enquanto ele cuidava de mim, das minhas coisas, enquanto ele transmitia os boletins do hospital diariamente a todos, mesmo sofrendo com a gravidade da situação, ele não esmoreceu. Mesmo assim, pessoas vis, mesquinhas e maldosas colocavam questionamentos sobre meu dinheiro, minhas contas, meus boletos. Ele pagou minhas contas com seu próprio dinheiro e nunca mexeu em um tostão meu, apesar de ter em mãos uma procuração de plenos poderes, dada a ele por mim, através de meu advogado. Eu e Xangô o escolhemos para cuidar de mim e das minhas coisas e assim ele o fez, do modo mais digno possível.
Daí eu fiquei pensando no quanto as pessoas são egoístas, porque mesmo num momento de tamanha delicadeza, estavam preocupadas com assuntos que não lhe pertenciam, mas ao mesmo tempo essas mesmas pessoas não pagaram um só boleto, não deram comida na minha boca, não me deram banho, não me levaram ao banheiro e ele fez tudo isso.
Quem se atreveria a comer esse quilo de sal junto comigo? Ele fez.
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Hoje, quando cheguei ao hospital para visitar minha amiga, havia mais de vinte pessoas de uma mesma família na recepção. Tinha muita gente de preto, caras apreensivas, brigas para poder entrar na visita, ultrapassando o limite permitido de pessoas. No princípio eu achei que a pessoa internada havia morrido, mas depois eu entendi que não.
Quando eu estava saindo do hospital, de longe ouvia choros e gritos na recepção. A pessoa havia morrido. Pelo que eu entendi era um idoso e e seus filhos conseguiram estar presentes nos seus últimos momentos.
Somos folhas de papel, frágeis e vulneráveis.
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Nos corredores deste hospital, que é um hospital especializado em tratamento de câncer, percebi uma coisa diferente dos hospitais gerais: os visitantes se olham e se cumprimentam com olhares ternos. Há uma conexão entre nós, amigos, familiares; há um desejo de transmitir uma mensagem de esperança e resignação. Porque todos estão lá pelo mesmo motivo: câncer. Não tem gripe, gravidez, braço quebrado. Todo paciente que está lá está tratando de algum tipo e algum estágio de câncer.
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O câncer é uma doença cruel.
No ano passado eu perdi a Pilar, uma grande amiga e irmã.
E as toxinas do mundo levam cada vez mais pessoas queridas de câncer.
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Hoje eu reencontrei um homem com quem me relacionei por um tempo, tivemos muitos encontros ao longo de alguns meses. Não nos víamos há quase dez anos. Tivemos um tempo curto de amizade, mas quando ele se lembrou de mim eu não lembrava nada dele. Ele se lembrava de tantas coisas que fizemos juntos e não lembrava de nada. Eu pedi desculpas a ele, e expliquei que o covid “queimou parte de meu HD” e ele me contou que para ele foi pior: perdeu seu companheiro de oito anos, em casa, na sua frente, levado pelo covid. Perdeu outros amigos, e sente até hoje, as dores dessas perdas.
Ele me perguntou se eu achava errado guardar presentes que seu marido havia lhe dado e alguns objetos pessoais dele e disse: “Eu sei que você pode achar ruim, mas…” e eu disse que não vejo nada de errado. Somos bombardeados por conceitos kardecistas que julgam a dor alheia e classificam esse pertences e lembranças como “apego indevido à matéria”. Eu disse a ele que, se ele, assim como eu, professa uma religião de matriz africana, vivemos e mantemos viva a nossa fé através de memórias, sejam elas materiais ou não.
Ao longo de nossas conversas, eu me lembrei o motivo de termos perdido contato: apaixonado pelo meu “conge” da época, fui obrigado a apagar e bloquear todos os contatos de homens da minha agenda. Também, ao longo da conversa, fui me lembrando de alguns momentos que passamos juntos. Ele se lembrava de tudo: da sala do meu consultório, do meu jogo de tarô, das mandingas que lhe ensinei, do meu baú de moedas.
Ele me falou que ficou muito feliz em me ver porque, após tantas perdas, encontrar pessoas do passado com quem ele teve bons encontros fazia com que ele se lembrasse do quando a vida era - e podia voltar - a ser boa.
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No mesmo dia de hoje um moço me manda mensagem no aplicativo. Sem nome, sem idade, sem foto. Escreveu: “Tudo bem? Beltrano aqui, saímos no passado.” Eu respondi: “Manifeste-se!”. E ele sumiu. Esse era apenas uma assombração.
Nesse mesmo dia- eita dia que não acaba! - um outro moço mandou mensagem no outro aplicativo, dizendo o nome e relatando que já nos conhecíamos. Eu expliquei que, sem foto, seria impossível festejar ou lamentar. E ele mandou uma foto, tosca, borrada, sem foco, que não resolveu nada. Questionei e ele nada disse. Esse era apenas um fantasma.
Nesse mesmíssimo dia aparece, também depois de quase dez anos, um moço lindo com quem conversei muito, troquei nudes, fizemos chamadas de vídeo, mas ele sempre deu o cano. Essa aparição foi do tipo de uma entidade mística, admirável e impalpável, intangível.
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Há vários tipos de aparições. Algumas são dignas de festejos e celebrações; outras não são dignas de nada. Resta, como a parábola do joio e do trigo, ou como a oração da sabedoria, saber separar uma coisa da outra e saber fugir, evitar, desviar do que não é mais bem vindo.
Entre 2016 a 2021, eu vivi muito na pele o tal do retorno de Saturno, longo, dolorido e depurativo e um outro ciclo de um outro planeta (que me esqueci) que possui também esse aspecto de reciclagem. Mesmo que não seja verdade a astrologia, eu senti todos os seus colaterais. Pessoas que eu considerava muito importantes morreram para mim nesse período. Uma parte velha de mim também morreu com o coma e trouxe à vida um Marcelo que eu considero mais sábio. Eu não estou dizendo exatamente que eu me ache sábio, veja bem; eu digo apenas que eu me sinto mais sábio do que eu era antes. Quase morrer levou tanta coisa ruim embora e trouxe uma nova visão sobre o mundo e sobre como eu vejo a vida hoje.
A coisa mais importante de todas, que eu inclusive escrevi no meu livro é: amem, de forma ativa, fazendo coisas por quem ama, mas também digam que amam. Porque é importante fazer e dizer. Ou,como disse Renato Russo: “É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”.
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Esse ano eu completo dez anos de iniciado no Candomblé. Tantas coisas se passaram em dez anos. Dez é o número atribuído a Oxalufan, que chamamos de Oxalá, o Senhor da sabedoria, da paciência, o representante da longa e inevitável passagem do tempo. Dizem que o tempo é Deus. Dizem que o tempo é um deus. Há deuses que regulam, representam ou nos ensinam sobre a passagem do tempo em inúmeras e diferentes culturas.
Dez anos passam rápido, mas também demoram a passar. Tudo depende de como dialogamos com esse deus-tempo. Dez anos não são dez dias, mas podem parecer mais rápidos que dez segundos de agonia.
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Voltando para Porto Seguro, já no avião, eu tentava arrumar lugar para minha mochila. Havia uma caixa de isopor pequena que ocupava o espaço de uma valise. Perguntei de quem era e a moça explicou que era seu remédio. Pedi para mudar de lugar e ela disse que não podia tombar. Mas já estava tombada e sem tampa. Enquanto eu ajeitava a caixa, pedi ajuda a um comissário de bordo que veio passando, sem pedir licença, e foi me empurrando, com uma mala de mão, dizendo que precisava passar, porque era um assunto de máxima urgência. Atrás dele, um moço segurando uma mochila, reclamando, passou, também empurrando. Eu não compreendi qual era a sua premissa de urgência, porque ele apenas acomodou aquele moço e retornou em segundos, me empurrando de novo.
(O comissário, do vôo LA3234 da Latam de 25/11/2025 de Guarulhos a Porto Seguro, era um homem branco, olhos claros, careca, com uma tatuagem extensa no antebraço esquerdo e uma gorda aliança no dedo.)
Eu tento, baseado em minhas próprias vivências de dias de burnout, compreender um dia ruim que uma pessoa possa estar passando e como isso pode repercutir nas reações em certos momentos. Eu sei também o quanto pessoas que trabalham em vôos sofrem, como suportam humilhações e maus tratos e quanto esse tipo de trabalho adoece as pessoas. Eu tento, mas nem sempre consigo. Eu queria perguntar a ele qual era aquela urgência e qual era a dificuldade dele em pedir licença para passar, ainda que fosse algo tão urgente, ainda que fosse apenas acomodar uma subcelebridade ou algum mauricinho mimado - sorry, pleonasmo detectado! - tentei, mas confesso que não compreendi.
Eu tentei compreender também porque a outra comissária fez uma cara muito feia quando eu pedi “pode ser os dois?” quando ela me ofereceu “salgadinho ou biscoito”, sendo que são dois pacotinhos de 25 gramas de carboidrato insuficientes portanto para alimentar esse corpinho de urso de mais de 120 quilos.
Perdão, aeromoça, tenho fome.
Eu até comecei a pensar que era bem a egrégora daquele grupinho de trabalhadores aéreos, mas não; tinha um funcionário bem contente e prestativo trabalhando de boíssima. Mas sim, os outros dois eram uma dupla e talvez constituíssem uma sub-egrégora mal humorada no mesmo vôo.
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Viver (geralmente) é melhor que sonhar, já disse o rapaz latinoamericano. Mas tem vezes que é melhor se alienar em sonho ou algum outro tipo de refúgio para poder continuar vivendo.
“Só para loucos”, disse Ventania.
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E por falar em sonho, estamos vivendo um sonho?
O cara tá preso, gente. E teve uma multidão de pessoas comemorando essa prisão tão sonhada, tão desejada, tão esperada. Avenida Paulista lotada.
E eu me lembrei de quando, há dez anos, Lula foi preso. Eu estava chegando, no aniversário de um amigo, na casa de sua mãe. Pessoas gritando, raivosas, orgásticas, xingando Lula, mandando chupar, se fuder, soltando fogos, batendo panelas, aplaudindo.
Hoje, no Uber, saindo do hospital, ouvia a declaração da jogadora de vôlei em lúcido inglês, comentando sobre sua vitória e sobre a vitória do Brasil com a prisão do cara.
E nesse momento, o motorista decide pedir a palavra. Disse que “independente de esquerda ou direita”, ele achava que uma pessoa como ela, pública, não deveria se pronunciar porque podia “perder seguidores ou ser cancelada” e que ela devia se ater somente ao seu trabalho como esportista e não falar sobre política.
Então ao invés de xingá-lo, porque nós sabemos o que significa “nem um nem outro” ou “nem esquerda nem direita”, eu expliquei a ele minha opinião de que ela era corajosa e admirável e do quanto eu achava que além de direito, uma pessoa pública como ela se pronunciar contra um regime fascista e assassino, sem medo de cancelamento, era de extrema importância para mobilizar a opinião pública. Mesmo assim ele ainda tentou argumentar sobre “unir as coisas boas da direita e da esquerda” e para ele a coisa boa da direita era… a meritocracia. Ele não disse esse nome, mas quis dizer isso. A conversa acabou antes que a minha paciência acabasse, somente porque a viagem chegou ao fim. Mas eu pude falar que, por descaso e perversidade, eu e milhares de pessoas padeceram gravemente na pandemia e que a alienação e a ignorância levavam as pessoas a escolher e exaltar a figura de um assassino vil e imundo. E quem apoiava essa barbárie era sim, fascista, ignorante ou alienado.
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Cheguei em casa, pilhado, meio perturbado, dormi mal, dormi pouco.
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Todos esses encontros, desencontros e reencontros me fizeram refletir sobre esses dez anos. Tanta coisa mudou na minha e dentro de mim.
Só não mudou o amor que sinto por essas pessoas que me rondam.
Quando eu voltei para Porto Seguro, uma amiga que havia ficado em coma na mesma época que eu me presenteou com um pôster da música do Flávio José, que diz : “Se avexe não, amanhã pode acontecer tudo, inclusive nada”.
Junto com o pôster, uma linda carta, cuja primeira frase jamais esquecerei, porque foi a primeira frase que ouvi de meu amigo e Babalorixá:
“Seja bem vindo de volta à Vida”
E isso que tenho para lhe dizer, minha amiga. Seja bem vinda de volta.
Que venham mais dez anos para você, mais dez e mais muitos dez.


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