Blog do Doutor Fofinho

"Tudo começou há algum tempo atrás na Ilha do Sol..." Há muitos anos eu montei esse blog, dando o nome "Le Cul du Tabou", inspirado por uma amiga, para falar sobre o tabu das coisas. Ganhei muitos seguidores, mas desde 2018 não escrevi mais nele. Estou retomando, agora com novo nome, o "Blog do Doutor Fofinho", muito mais a minha cara, minha identidade. Sejam bem vindos.

Tuesday, November 25, 2025

JÓIAS PERDIDAS RESGATADAS NO TEMPO



Neste final de semana eu viajei a São Paulo para estar ao lado de uma grande amiga que iria passar por um procedimento de saúde delicado, desses que levam as pessoas que amamos embora. 


Ela é uma amiga muito amada, uma dessas pessoas que considero verdadeiras irmãs que encontrei e escolhi para sempre. Por intempéries do destino, ficamos mais de dez anos sem nos ver. Mas eu tinha certeza que um dia voltaríamos a falar, como se nada tivesse acontecido. E assim ocorreu em 2020, no começo da pandemia. Ela curtiu um comentário meu contra o presidiário #elenao e daí por diante restabelecemos nosso contato como se nunca tivéssemos ficado tantos anos afastados. Ela planejava uma viagem surpresa para me visitar em março, mas a pandemia derreteu tudo. 


Veio meu coma e ela esteve presente no grupo de amigos que se reuniu torcendo pelo meu retorno e resolvendo algumas coisas práticas e, depois do hospital, já vacinado, nos encontramos. Ela disse o quanto me amava e pediu perdão por ter se afastado, mas eu disse que estava tudo bem, porque eu entendia suas razões. Às vezes precisamos nos guardar embaixo de cascas protetoras para sobreviver à dureza da existência.


Felizmente tudo está correndo bem e tudo indica que estaremos comemorando sua vida por muitos e muitos anos. Mas foi inevitável me sentir apreensivo; foi inevitável relembrar o que sofri durante minha internação e durante minha recuperação, coisas que só quem viveu isso na pele poderá entender. 


*****

Comentando sobre a situação dela com meu pai-de-santo, relembramos o quanto foram difíceis para ELE quando eu estava em coma, à beira da morte. Ele havia acabado de perder sua avó, há menos de um ano e lá estava eu, um filho e um grande amigo, na “corda bamba de sombrinha”.


Seu Marinheiro veio em terra uma vez, tomou seu corpo para dizer que tudo ia dar certo e que eu ia sair do coma, porque ele dizia: “Eu não vou conseguir enterrar meu amigo”.


Enquanto ele cuidava de mim, das minhas coisas, enquanto ele transmitia os boletins do hospital diariamente a todos, mesmo sofrendo com a gravidade da situação, ele não esmoreceu. Mesmo assim, pessoas vis, mesquinhas e maldosas colocavam questionamentos sobre meu dinheiro, minhas contas, meus boletos. Ele pagou minhas contas com seu próprio dinheiro e nunca mexeu em um tostão meu, apesar de ter em mãos uma procuração de plenos poderes, dada a ele por mim, através de meu advogado. Eu e Xangô o escolhemos para cuidar de mim e das minhas coisas e assim ele o fez, do modo mais digno possível. 


Daí eu fiquei pensando no quanto as pessoas são egoístas, porque mesmo num momento de tamanha delicadeza, estavam preocupadas com assuntos que não lhe pertenciam, mas ao mesmo tempo essas mesmas pessoas não pagaram um só boleto, não deram comida na minha boca, não me deram banho, não me levaram ao banheiro e ele fez tudo isso. 


Quem se atreveria a comer esse quilo de sal junto comigo? Ele fez. 


****


Hoje, quando cheguei ao hospital para visitar minha amiga, havia mais de vinte pessoas de uma mesma família na recepção. Tinha muita gente de preto, caras apreensivas, brigas para poder entrar na visita, ultrapassando o limite permitido de pessoas. No princípio eu achei que a pessoa internada havia morrido, mas depois eu entendi que não. 


Quando eu estava saindo do hospital, de longe ouvia choros e gritos na recepção. A pessoa havia morrido. Pelo que eu entendi era um idoso e e seus filhos conseguiram estar presentes nos seus últimos momentos. 


Somos folhas de papel, frágeis e vulneráveis. 


***


Nos corredores deste hospital, que é um hospital especializado em tratamento de câncer, percebi uma coisa diferente dos hospitais gerais: os visitantes se olham e se cumprimentam com olhares ternos. Há uma conexão entre nós, amigos, familiares; há um desejo de transmitir uma mensagem de esperança e resignação. Porque todos estão lá pelo mesmo motivo: câncer. Não tem gripe, gravidez, braço quebrado. Todo paciente que está lá está tratando de algum tipo e algum estágio de câncer. 


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O câncer é uma doença cruel. 


No ano passado eu perdi a Pilar, uma grande amiga e irmã. 


E as toxinas do mundo levam cada vez mais pessoas queridas de câncer. 


***


Hoje eu reencontrei um homem com quem me relacionei por um tempo, tivemos muitos encontros ao longo de alguns meses. Não nos víamos há quase dez anos. Tivemos um tempo curto de amizade, mas quando ele se lembrou de mim eu não lembrava nada dele. Ele se lembrava de tantas coisas que fizemos juntos e não lembrava de nada. Eu pedi desculpas a ele, e expliquei que o covid “queimou parte de meu HD” e ele me contou que para ele foi pior: perdeu seu companheiro de oito anos, em casa, na sua frente, levado pelo covid. Perdeu outros amigos, e sente até hoje, as dores dessas perdas.


Ele me perguntou se eu achava errado guardar presentes que seu marido havia lhe dado e alguns objetos pessoais dele e disse: “Eu sei que você pode achar ruim, mas…” e eu disse que não vejo nada de errado. Somos bombardeados por conceitos kardecistas que julgam a dor alheia e classificam esse pertences e lembranças como “apego indevido à matéria”. Eu disse a ele que, se ele, assim como eu, professa uma religião de matriz africana, vivemos e mantemos viva a nossa fé através de memórias, sejam elas materiais ou não. 


Ao longo de nossas conversas, eu me lembrei o motivo de termos perdido contato:  apaixonado pelo meu “conge” da época, fui obrigado a apagar e bloquear todos os contatos de homens da minha agenda. Também, ao longo da conversa, fui me lembrando de alguns momentos que passamos juntos. Ele se lembrava de tudo: da sala do meu consultório, do meu jogo de tarô, das mandingas que lhe ensinei, do meu baú de moedas. 


Ele me falou que ficou muito feliz em me ver porque, após tantas perdas, encontrar pessoas do passado com quem ele teve bons encontros fazia com que ele se lembrasse do quando a vida era - e podia voltar - a ser boa.


***


No mesmo dia de hoje um moço me manda mensagem no aplicativo. Sem nome, sem idade, sem foto. Escreveu: “Tudo bem? Beltrano aqui, saímos no passado.” Eu respondi: “Manifeste-se!”. E ele sumiu. Esse era apenas uma assombração. 


Nesse mesmo dia- eita dia que não acaba! - um outro moço mandou mensagem no outro aplicativo, dizendo o nome e relatando que já nos conhecíamos. Eu expliquei que, sem foto, seria impossível festejar ou lamentar. E ele mandou uma foto, tosca, borrada, sem foco, que não resolveu nada. Questionei e ele nada disse. Esse era apenas um fantasma. 


Nesse mesmíssimo dia aparece, também depois de quase dez anos, um moço lindo com quem conversei muito, troquei nudes, fizemos chamadas de vídeo, mas ele sempre deu o cano. Essa aparição foi do tipo de uma entidade mística, admirável e impalpável, intangível.


***


Há vários tipos de aparições. Algumas são dignas de festejos e celebrações; outras não são dignas de nada. Resta, como a parábola do joio e do trigo, ou como a oração da sabedoria, saber separar uma coisa da outra e saber fugir, evitar, desviar do que não é mais bem vindo. 


Entre 2016 a 2021, eu vivi muito na pele o tal do retorno de Saturno, longo, dolorido e depurativo e um outro ciclo de um outro planeta (que me esqueci) que possui também esse aspecto de reciclagem. Mesmo que não seja verdade a astrologia, eu senti todos os seus colaterais. Pessoas que eu considerava muito importantes morreram para mim nesse período. Uma parte velha de mim também morreu com o coma e trouxe à vida um Marcelo que eu considero mais sábio. Eu não estou dizendo exatamente que eu me ache sábio, veja bem; eu digo apenas que eu me sinto mais sábio do que eu era antes. Quase morrer levou tanta coisa ruim embora e trouxe uma nova visão sobre o mundo e sobre como eu vejo a vida hoje. 


A coisa mais importante de todas, que eu inclusive escrevi no meu livro é: amem, de forma ativa, fazendo coisas por quem ama, mas também digam que amam. Porque é importante fazer e dizer. Ou,como disse Renato Russo: “É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”. 


***


Esse ano eu completo dez anos de iniciado no Candomblé. Tantas coisas se passaram em dez anos. Dez é o número atribuído a Oxalufan, que  chamamos de Oxalá, o Senhor da sabedoria, da paciência, o representante da longa e inevitável passagem do tempo. Dizem que o tempo é Deus. Dizem que o tempo é um deus. Há deuses que regulam, representam ou nos ensinam sobre a passagem do tempo em inúmeras e diferentes culturas. 


Dez anos passam rápido, mas também demoram a passar. Tudo depende de como dialogamos com esse deus-tempo. Dez anos não são dez dias, mas podem parecer mais rápidos que dez segundos de agonia. 


***


Voltando para Porto Seguro, já no avião, eu tentava arrumar lugar para minha mochila. Havia uma caixa de isopor pequena que ocupava o espaço de uma valise. Perguntei de quem era e a moça explicou que era seu remédio. Pedi para mudar de lugar e ela disse que não podia tombar. Mas já estava tombada e sem tampa. Enquanto eu ajeitava a caixa, pedi ajuda a um comissário de bordo que veio passando, sem pedir licença, e foi me empurrando, com uma mala de mão, dizendo que precisava passar, porque era um assunto de máxima urgência. Atrás dele, um moço segurando uma mochila, reclamando, passou, também empurrando. Eu não compreendi qual era a sua premissa de urgência, porque ele apenas acomodou aquele moço e retornou em segundos, me empurrando de novo. 


(O comissário, do vôo LA3234 da Latam de 25/11/2025 de Guarulhos a Porto Seguro, era um homem branco, olhos claros, careca, com uma tatuagem extensa no antebraço esquerdo e uma gorda aliança no dedo.) 


Eu tento, baseado em minhas próprias vivências de dias de burnout, compreender um dia ruim que uma pessoa possa estar passando e  como isso pode repercutir nas reações em certos momentos. Eu sei também o quanto pessoas que trabalham em vôos sofrem, como suportam humilhações e maus tratos e quanto esse tipo de trabalho adoece as pessoas. Eu tento, mas nem sempre consigo. Eu queria perguntar a ele qual era aquela urgência e qual era a dificuldade dele em pedir licença para passar, ainda que fosse algo tão urgente, ainda que fosse apenas acomodar uma subcelebridade ou algum mauricinho mimado - sorry, pleonasmo detectado! - tentei, mas confesso que não compreendi. 


Eu tentei compreender também porque a outra comissária fez uma cara muito feia quando eu pedi “pode ser os dois?” quando ela me ofereceu “salgadinho ou biscoito”, sendo que são dois pacotinhos de 25 gramas de carboidrato insuficientes portanto para alimentar esse corpinho de urso de mais de 120 quilos. 


Perdão, aeromoça, tenho fome. 


Eu até comecei a pensar que era bem a egrégora daquele grupinho de trabalhadores aéreos, mas não; tinha um funcionário bem contente e prestativo trabalhando de boíssima. Mas sim, os outros dois eram uma dupla e talvez constituíssem uma sub-egrégora mal humorada no mesmo vôo. 


***


Viver (geralmente) é melhor que sonhar, já disse o rapaz latinoamericano. Mas tem vezes que é melhor se alienar em sonho ou algum outro tipo de refúgio para poder continuar vivendo.


“Só para loucos”, disse Ventania.


***


E por falar em sonho, estamos vivendo um sonho? 


O cara tá preso, gente. E teve uma multidão de pessoas comemorando essa prisão tão sonhada, tão desejada, tão esperada. Avenida Paulista lotada. 


E eu me lembrei de quando, há dez anos, Lula foi preso. Eu estava chegando, no aniversário de um amigo, na casa de sua mãe. Pessoas gritando, raivosas, orgásticas, xingando Lula, mandando chupar, se fuder, soltando fogos, batendo panelas, aplaudindo. 


Hoje, no Uber, saindo do hospital, ouvia a declaração da jogadora de vôlei em lúcido inglês, comentando sobre sua vitória e sobre a vitória do Brasil com a prisão do cara. 


E nesse momento, o motorista decide pedir a palavra. Disse que “independente de esquerda ou direita”, ele achava que uma pessoa como ela, pública, não deveria se pronunciar porque podia “perder seguidores ou ser cancelada” e que ela devia se ater somente ao seu trabalho como esportista e não falar sobre política.


Então ao invés de xingá-lo, porque nós sabemos o que significa “nem um nem outro” ou “nem esquerda nem direita”, eu expliquei a ele minha opinião de que ela era corajosa e admirável e do quanto eu achava que além de direito, uma pessoa pública como ela se pronunciar contra um regime fascista e assassino, sem medo de cancelamento, era de extrema importância para mobilizar a opinião pública. Mesmo assim ele ainda tentou argumentar sobre “unir as coisas boas da direita e da esquerda” e para ele a coisa boa da direita era… a meritocracia. Ele não disse esse nome, mas quis dizer isso. A conversa acabou antes que a minha paciência acabasse, somente porque a viagem chegou ao fim. Mas eu pude falar que, por descaso e perversidade, eu e milhares de pessoas padeceram gravemente na pandemia e que a alienação e a ignorância levavam as pessoas a escolher e exaltar a figura de um assassino vil e imundo. E quem apoiava essa barbárie era sim, fascista, ignorante ou alienado.


*** 


Cheguei em casa, pilhado, meio perturbado, dormi mal, dormi pouco. 


***


Todos esses encontros, desencontros e reencontros me fizeram refletir sobre esses dez anos. Tanta coisa mudou na minha e dentro de mim.


Só não mudou o amor que sinto por essas pessoas que me rondam. 


Quando eu voltei para Porto Seguro, uma amiga que havia ficado em coma na mesma época que eu me presenteou com um pôster da música do Flávio José, que diz : “Se avexe não, amanhã pode acontecer tudo, inclusive nada”.


Junto com o pôster, uma linda carta, cuja primeira frase jamais esquecerei, porque foi a primeira frase que ouvi de meu amigo e Babalorixá:


“Seja bem vindo de volta à Vida”


E isso que tenho para lhe dizer, minha amiga. Seja bem vinda de volta.


Que venham mais dez anos para você, mais dez e mais muitos dez.

Thursday, November 28, 2024

EVANESCER


 Evanescência é um substantivo feminino. 

“Efemeridade; característica do que é evanescente, fugaz ou efêmero. Qualidade do que tende a se dissipar; que se altera ou se transforma.”

Nossa amizade tem 12 anos, 4 meses e algumas vidas passadas. 

Eu sempre chamei você de Pilar, seu sobrenome. Porque esse nome representava, pra mim, a sua força. Embora pareça fálico. Mas eu não conheci ninguém mais tão fálica que você, mesmo sendo tão contra-fálica.

E mesmo antes de você ser internada, quando os médicos disseram que não havia mais nada, alguns meses antes você mjá iniciava seu processo de evanescência. Seu corpo foi se dissolvendo, pouco a pouco, na estrada do tempo. 

Eu sei que você sentiu dores físicas e psíquicas, mas esse pilar encrustrado na sua alma de mulher selvagem fizeram você agarrar cada fio de vida com tanta força que às vezes parecia que nada estava acontecendo. 

Dois meses atrás a gente se encontrou e você já estava “evanescida”. Muito magra, muito fraca, muito cansada, muito ocre. Mas a alma furacão da Pilar continuava cheia de vida e planos. 

Mas há pouco mais de dez dias, quando soube que você estava internada, meu coração apertou por medo de que não desse tempo de te encontrar vida-em-seu-corpo.

Você me disse, como seu fosse uma ordem: “Está na hora do milagre”. 

Mas o que mais me angustiou foi ler:

“Eu tô precisando de você.”

Eu que sou amedrontado pela morte, me vi num beco sem saída. Mas daí me atormentou o risco de não lhe abraçar mais carnalmente; e daí me veio a lembrança de que foi você, Pilar, que me tirou na cama no hospital e me ajudou a ir para meu primeiro banho de chuveiro após o meu coma. 

Eu lhe devia isso.

E na quarta passada nos vimos, choramos, nos abraçamos, demos risadas, dormimos abraçados, com a Melzinha entre nós. Ela, sua eterna predileta, também evanescendo, respirava cansada, que nem você. 

E eu cheguei a te fazer rituais de limpeza, cheguei a te dar um banho místico, porque o meu desejo era que você vivesse bem por mais um tempo e sofresse pouco. Mas a gente não pode ter tudo. Depois a  Vovó Maria Conga veio e lhe benzeu, tirou toxinas do seu corpo. Sem (eu) saber, preparamos sua alma para que, suavemente, deixasse seu corpo descansar.

Uma vez você me pediu que se você estivesse doente e sofrendo, que eu lhe matasse e jogasse no mato para ser comida dos animais selvagens. Você sabe que eu não conseguiria fazer isso e o melhor presente que Orixá pode lhe dar foi lhe garantir o menor sofrimento possível e a evanescência.

E eu ainda lhe presenteei com uma terapia chinesa, queria lhe dar o tal milagre. 

“Mano, você tá me dando tantos presentes!” 

“Eu sei que você faria o mesmo”, respondi.

E eu cheguei a encomendar um mapa astral, porque eu queria saber que os planetas lhe ajudariam. E o astrólogo, um grande amigo, me disse, quase sussurrando, que você não demoraria muito a partir, por causa dos tais trânsitos de marte…

Talvez, como ele disse, se você trabalhar as raivas… não deu tempo. Mas quem seria você sem suas raivas? A raiva sempre foi o seu grande pilar, Pilar. 

E então os dias foram passando e você foi indo embora do seu corpo, enquanto ele dissolvia. E, já no hospital, os médicos lhe ajudaram com a morfina, para que você deixasse seu corpo de fininho, sem perceber. 

Eu falava pra quem perguntava de você: 

“Ela está evanescendo”

E numa quarta-feira de noite, Iansan chegou, pegou você em espírito pelo braço e te levou para passear com o vento. E enquanto você partia, eu falava com uma amiga sobre você, saboreando um vinho tinto. Contei algumas das suas peripécias, falei das suas teimosias, exaltei a sua garra e a sua obstinação em estar viva. 

E seu corpo evanesceu, “sem correr, bem devagar..”, caetaneando.

As filhas de Oyá evanescem e viram vento. E  você, sua alma viva, livre e selvagem, estará sempre aqui, ali, em todo lugar. 


Boa viagem, Pilar. 


(Minha amiga Andrea Pilar Marranquiel evanesceu hoje, 27 de novembro de 2024, depois de lutar alguns anos, não contra o câncer, mas pela vida)

Saturday, October 12, 2024

O CANDOMBLÉ


* Foto: @pretophotobrasil

O Candomblé é uma sofisticada forma de culto e de cuidado. Quando eu era “mais pequenino” do que ainda sou em suas ciências, ouvi um sacerdote dizer que “a umbanda era para a caridade e o candomblé era para cuidar de si mesmo”. Na época eu respeitei aquelas palavras, mas algo me dizia que se tratava de um saber parcial. Faltava porque eu sentia que faltava mesmo e faltava porque essa mesma pessoa possuía a vivência limitada dos becos que havia frequentando. 


Mesmo assim, há um pedaço do conhecimento desse sacerdote que é verdadeiro; existe sim uma dimensão individual do cuidado no Candomblé. Você pode chegar, acessar uma consulta ao jogo de búzios, você pode tomar banhos de folhas, fazer ebós e uma série de rituais propiciatórios para várias finalidades. Você pode até “invadir” um pouco mais esse território e assentar orixás, você pode até passar pelo processo de iniciação, a tal “feitura”, “raspar cabeça”, como dizemos popularmente. 


Esse mesmo sacerdote nos contava, inúmeras vezes, quantos mil reais havia pago por esse ou aquele “feitiço” que consistiam, na verdade, em ensinamentos que deveriam ter sido ensinados e aprendidos oralmente, dentro de um terreiro de Candomblé.


O Candomblé não é uma “mercearia” de prestação de serviços mágicos individuais. Essa é a ótica da branquitude que foi se apropriando desse espaço e transformando a relação com o sagrado num produto a ser comprado e vendido, cada vez mais caro e mais inacessível a quem mais seria de direito. 


Para além desse cuidado individual, o Candomblé é um lugar de e para a coletividade. Porque essa cura que o Candomblé promove é uma cura mais coletiva que individual, mais grupal do que solitária, mais generosa do que mercantil. 


Ainda assim, você poderá “desfrutar” de vários desses processos mágicos que o dinheiro puder comprar e mesmo assim você não estará “dentro” do Candomblé. Você pode passar pelo processo de iniciação e ter um lindo assentamento para chamar de seu, e fios de contas portentosos, e paramentas belísimas, e até um nome sagrado; ainda assim você não estará fazendo parte. Porque você “comprou” um processo e talvez compre até um “diploma” de “ebômi” ou de “sacerdote”, porque decorreram anos a partir da sua iniciação, mas você não frequentou a “escola”. Comprar um diploma de graduação pode te fazer o “diplomado” perante uma multidão; mas você será, para si mesmo e para Orixá, um eterno mal aprendiz.


Uma vez testemunhei a saída de uma moça do meu terreiro. Ela, de cabeça erguida, chegou aos pés de meu Babalorixá e disse: eu agradeço por tudo, mas estou indo embora. Eu admiro o que vocês fazem, mas não dou conta, não consigo. Essa moça terá sempre meu respeito. Porque ela foi capaz de assumir que não era capaz de HONRAR aquele espaço como deveria. Veja, eu disse HONRAR. 


Alguns sacerdotes falam  desse tempo de “abianato”, o tempo de ser abian, o noviço, e conhecer aquela casa, aquela família. Mas eu penso que esse abianato pode durar anos e mesmo assim ser insuficiente para que aquela pessoa tenha um real despertar sobre o significado, sobre a importância, sobre o valor de pisar nesse espaço sagrado.


Não há livro, palestra ou apostila que ensine.


Esse texto não é um artigo científico; tampouco um ensaio filosófico. Esse texto é uma escrita que brotou da minha alma ao refletir sobre os acontecimentos desses últimos dias. Há poucos dias eu realizei, nesta casa de Candomblé, o Caruru de Ibeji e toquei, junto com meu Babalorixá, o primeiro xirê, após a inauguração do terreiro. E enquanto o xirê acontecia, um filme passou em minha mente. E eu estou dizendo isso porque, apesar de “não-filosófico”, preciso dizer que sou particularmente apaixonado pelo conceito de “ser afetado” de Favret-Saada (FAVRET-SAADA, Jeanne. 1990. “Être Affecté”. In: Gradhiva: Revue d’Histoire et d’Archives de l’Anthropologie, 8. pp. 3-9), e eu posso dizer que eu fui afetado pelo Candomblé. 


Você pode se sentir tocado numa cerimônia de Candomblé, pelo abraço de um Orixá. Mas ser tocado não significa ser afetado. Porque ser afetado significa ser transformado pela experiência e isso não necessariamente ocorrerá de forma imediata, mas por vezes em um longo processo. Eu fui afetado e meu modo de ver o mundo foi transformado pelo Candomblé.


Quando eu saí da umbanda e adentrei o Candomblé, minha rotina com as coisas espirituais se modificou, se intensificou. Uma amiga chegou a me criticar, dizendo: “Estou com raiva dessa sua nova religião, eu não consigo mais te encontrar”, simplesmente porque as pessoas não compreendem as longas horas que nos comprometemos com o culto. Muitas pessoas também não compreendem a natureza dos nossos relacionamentos com as pessoas do culto, com nossa família de santo, chamando-nos de “fanáticos”. 


Hoje, conversando com uma pessoa que está para adentrar o Candomblé, ela me disse: “É um fardo que eu não gostaria de carregar, mas é minha missão e eu tenho que assumir”. E então eu dei a minha opinião: “Sim, a religião é trabalhosa, mas não a sinto como um fardo. Eu faço parte do grupo de pessoas que pensa que é uma honra servir aos nossos deuses e deusas; é uma honra louvar Orixá”


Eu já ouvi muitos sacerdotes dizerem que as pessoas que nascem com a missão de serem sacerdotes de religião de matriz africana são as pessoas que mais teriam “karmas a pagar”. Hoje eu penso que isso é uma grande falácia racista que é repetida por muitas pessoas que transformam o culto em um tipo de escravidão contemporânea. 


Eu estou há dias escrevendo esse texto. E a cada linha me vêm outras novas lembranças de experiências vividas, e eu creio que ficaria escrevendo dias a fio e não terminaria de colocar meus pensamentos. Talvez eu escreva mais em outro momento.


Eu não desejo chegar a algum lugar com esse texto. Talvez, em seu ponto de partida, eu quisesse. Mas, ao longo dessa jornada, esse objetivo perdeu o sentido. Sobrou uma longa história, de um homem que tinha preconceito com as religiões de matriz africana e que, pouco a pouco, foi aprendendo e se transformando, a ponto de se tornar um fiel apaixonado pelas suas tradições. Xangô foi testemunha de tudo o que vivi nessa viagem para chegar até aqui e contar essas histórias para vocês.


Mas, se eu puder, a essa altura da minha vivência, ensinar algo, eu digo: HONREM o Candomblé. Honrem com suor e lágrimas esse culto que foi desenvolvido com tanta luta de muita gente que veio antes de nós. Sacerdotes, Sacerdotisas, Reis e Rainhas que, mesmo num contexto de extrema violência que foi a escravidão, conseguiram preservar um amálgama de ensinamentos que chegou até os dias de hoje. 

Saturday, May 13, 2023

IRRITA(ÇÃO)

 

Tenho irritado(-me) demais

Estou lendo Carolina e me oscilo com ela

Meu humor

Meu cansaço

Ontem acordei ou fui acordado

Pela sede

Pela fome

Pela pica(dura)

Crucificado em meu próprio leito

Bebi água e jorrei leite

São oitocentos mil assuntos

Centenas de pacientes

Trilhares de zápis

Um mar de burnôs

E eu ainda me deparo com lembranças ruins

De um tempo que passou e não

Deu tempo

De apagar as pegadas que as redes deixam.


Então

Hoje machuquei a polpa do dedão

Apertando deléty

Respirando a cada delêi

Da internéti


E agora estou sem ar

Todos querem venvanse

E eu só quero poder dormir sem ser acordado

Nada de coma, nada de morte

Apenas um merecido cochilo longo



Wednesday, February 01, 2023

Sobre Reality Shows

Eu não SIGO o tal reality show da tal emissora. Eu já assisti algumas vezes para dar uma xeretada, mas aquilo nunca me prendeu. 

Belial: “Demônio adorado pelo povo de Sidon. O inferno jamais recebeu espírito mais dissoluto, mais sórdido, mais imbuído do vício pelo próprio vício. Sua alma é hedionda” – Foto: Reprodução / Dicionário Infernal

O único período em que eu “assisti” diariamente foi quando estava na UTI. Não era um desejo, era apenas um barulho da TV que me distraía, diariamente, das 14h até a hora da madrugada que meus olhos se fechassem. Às vezes  eu tentava enxergar, sem óculos, sem poder me mexer e com a vista embaçada, o que eles falavam e faziam. Eu lembro de algumas cenas de “provas” que se configuravam para mim em cenas de tortura. 


Lembrar mesmo, eu lembro da Festa da Coca-Cola. E lembro ter chorado de sede e de desejo por esse objeto de amor, tão distante, preso numa TV pendurada no alto da parede de um quarto de UTI.


Há alguns anos, eu resolvi participar de um reality show de culinária. Estava eu, empolgado com minha quituteria, pensando em abrir restaurante e vendo minhas receitas sendo reproduzidas por um montão de gente. Eu achei que ia ser divertido passar quinze dias confinado num hotel para a gravação do tal programa. 


Eu fui ingênuo e me lasquei. 


Um colega participante, sujeito de coração bom, disse uma vez entre nós: eles não provaram a nossa comida para saber que cozinhamos bem. O que eles querem aqui é o conflito. 


E essa é a verdade.


Seja qual for o tema do reality, culinária, gente pelada, atores falidos trancafiados, o objetivo é sempre o mesmo: ganhar audiência através da incitação ao sadismo, ao conflito, a polarizações. Não há poesia, não há arte, não há verdade num  reality: só há um sádico modo de conduzir a edição do que foi dito, visto, feito, seja percebido de uma forma que gere guerra, rivalidade, divisão.  Não há nada de realidade num reality. 


A única realidade é a trágica consequência na vida de muitos e um ou dois eleitos para cada temporada. 


Eu fiquei míseros dois dias trancafiado e ganhei uma enxaqueca que perdurou mais de 24 horas, insônia e, mesmo quinze dias após a minha saída, tive sintomas de estresse pós-traumático e pesadelos com os jurados me humilhando enquanto eu usava o avental sujo que ganhei e a panela wok vagabunda da China com o nome do programa. E fiquei mais de um mês sem cozinhar, chegando a pensar que não cozinhava bem. Tenho dois amigos excelentes cozinheiros que passaram pela mesma experiência de reality e ficaram meses em crise com a sua profissão, por se acharem incapazes. 


Algum tempo depois, fui convidado para participar de um reality show de uma outra emissora. 


Eu disse para a produtora: “Minha temporada de participação em reality shows está encerrada para esta encarnação.”


E ela: “E você tem alguém pra indicar?”


E eu: “Nem meu pior inimigo”


E por que é que eu resolvi escrever sobre isso hoje? Não é de hoje que inevitavelmente vejo comentários das pessoas sobre o tal reality. Torcidas, comentários, memes e, principalmente violência. Violência nos julgamentos, nos comentários, nos ditos cancelamentos, intolerância, preconceito. Quando assistimos um filme, uma peça de teatro ou outra forma de expressão artística, há um personagem representado por um ator ou atriz que, terminada sua obra, sua filmagem, seu espetáculo, “deixa de ser” o personagem e continua sua vida. É claro que, dependendo da intensidade do personagem, o ator ou atriz pode vivenciar abalos em sua homeostase. Há também, em alguns momentos, pessoas que confundem o personagem com o ator ou atriz e faz elogios ou críticas ao encontro-lo (a) na rua. Mas são momentos, são passageiros. 


Eu não me aventurarei em conceitos profundos sobre o que é arte, mas, para mim, não há nada de arte ou artístico num reality show, mesmo que seja protagonizado por artistas. Há, em minha  opinião, pessoas que até podem trabalhar como artistas, mas são colocadas em caixotes de confinamentos e, como marionetes editáveis, são-lhe impingidos personagens, exaltando suas qualidades ou vulnerabilidades, onde até suas falas são editadas. 


Não, eu não estou defendendo ninguém. Estou apenas dizendo que as falas daquelas pessoas confinadas são distorcidas para a construção de personagens que atendam ao sadismo e à violência de seus espectadores. Não só deles, mas também de outros tipos de espectadores que possam se identificar com um ou outro personagem. Porque para cada sádico existe, pelo menos, um masoquista. MAs é a violência - violentar e ser violentado, agredir, ser agredido, se vingar e todos esses sentimentos que são despertados no espectador, que movimentam a bilionária máquina dos reality shows. 


Assista quem quiser assistir. Encare como quiser encarar. 

Tuesday, November 08, 2022

“ESTAMOS DE LADOS OPOSTOS”

 


(Frase de minha tia, de quase oitenta anos, há alguns dias, ao telefone, após a eleição democrática de Luís Inácio Lula da Silva.)


Eu nasci em uma família de classe média da zona norte de São Paulo. Meu avô se aposentou como um executivo de uma multinacional, mas não enriqueceu, porque preferiu fazer muitos filhos em duas famílias paralelas. Opa. Minto. Três. Tem essa terceira família que foi vista, mas jamais revelada. 


Ele  foi acusado de um roubo quando era operário de uma fábrica e ficou preso por 2 anos e foi torturado na época do Estado Novo. Ele não falava sobre isso, mas tinha ódio de polícia. 


Ele faleceu em 1999 de um câncer de pulmão. Eu não me lembro de suas inclinações políticas, não consigo ouvir um nome de algum político saindo de sua boca. Então eu não sei imaginar o que ele pensaria desse momento político. Na minha ilusão de garoto novo que amava seu avô como um pai, eu prefiro acreditar que ele, como um homem ponderado e justo que era, não destilaria ódio e sua sensatez o faria votar em Lula, pensando que esse seria o melhor caminho para assegurar um Estado Democrático de Direito. Não um qualquer, mas o nosso. Brasil. 


Meu avô me deu carinho, me amou como um filho. Quando minha avó faleceu, dormíamos eu e ele no mesmo quarto, cada um em sua cama, separadas por um móvel de cabeceira. Todas as noites rezávamos e ele se emocionava quando lembrava da minha avó e às vezes chorava. Ele não era um homem de demonstrar grandes afetos, mas a sua presença, seu cuidado, seus ensinamentos, foram fundamentais para que eu sobrevivesse. Ele me ensinou a fazer barba, engraxar sapatos, consertar coisas, furar paredes. Ele era um homem justo que colocava pessoas em situação de rua para sentar à sua mesa para comer. 


Sua inteligência o levou a se tornar um homem de negócios, o tal do “bem sucedido”, sempre perfumado e bem vestido, Rolex no pulso, carro novo, motorista particular, inúmeras viagens para a Europa. Mas, de certo modo, esse avô estava só. Ele era diferente. Talvez tenha sido por isso que, quando ele se aposentou, nunca mais quis fazer nada de trabalho, doou todos os ternos, vendeu o Rolex e foi viver com sua “outra” família, numa casinha simples no subúrbio. 


Eu comecei um texto pensando em discorrer sobre meus parentes e sobre a falta de visão política deles. Mas daí eu percebi que não há nada que eu possa fazer a esse respeito. E então veio à mente a história do meu avô, tentando refletir sobre o que “deu errado” a partir do meu avô até seus filhos e netos ou que talvez seja tudo uma ilusão do meu coração de menino e esse avô idealizado talvez nunca tenha existido de fato. Eu acho que jamais saberei. 


Então eu me pego pensando sobre mim mesmo e me pergunto: porque não deu errado? Por que eu não segui essa trajetória comum, essa via “fácil” da visão turva? Em que momento da linha da vida eu passei a rejeitar esse valores conservadores, preconceituosos, por quais motivos eu não me tornei um bolsominion?


Eu costuma dizer, mesmo sem entender: “Eu caí no funil errado.” Se isso puder ser verdade, eu acredito.


Mas, voltando aos fatos, eu nasci e cresci transgressivamente. Eu nasci de uma mãe que era filha mais nova e mimada que engravidou aos 19 anos de um homem pobre que foi obrigado a casar para “honrar” essa moça. Eu passei a minha infância sendo ofendido, agredido e ridicularizado por tios homens machistas. Bastardo, gordo, viadinho. Sim, um garoto gordo e um pouco “criança-viada” que odiava ser parecido com o pai que fazia questão em dizer que não era seu pai, mesmo que fossem um a cara do outro. 


Eu passei a vida toda sendo o menino bonzinho, intelectual, inteligente, prestativo, educado e subserviente pelo propósito único de me sentir amado. Ou menos banido. Mas a sensação de desencaixe era permanente. Por um tempo eu achei que a homossexualidade era o suficiente para explicar essa sensação de desencaixe. Havia sempre uma sensação de estar no lugar errado, de querer fugir, ir embora. Desde a infância eu criei e sustentei a fantasia de ser um “outro Marcelo”, rico, capaz, poderoso e que ajudava as pessoas com seu dinheiro quase infinito. Apenas uma fantasia. 


O diploma de médico e todos os outros títulos que vieram em sequência, associado ao quanto somos moldados a desejar a vida de riqueza e luxo como condição intrínseca ao “ser médico”, me abasteceram por anos nesse universo de incompletude. Por anos eu representei me sentir vencedor pelo aspecto financeiro, social e profissional, mas no fundo, eu me sentia vazio e só. Mesmo em momentos de ápice do glamour, nas viagens, nos restaurantes caros., havia um momento em que tudo isso não valia nada e sobrava apenas uma enorme angústia.


Recentemente uma pessoa que conheci me disse algo assim:  “quando você experimenta colocar molho na carne, você nunca mais vai querer carne sem molho e cada vez mais vai querer sofisticar o molho”. Ela disse isso como algo bom, que a busca por “coisas melhores” era infinita. Eu acho isso horrível. Minha alma justiceira tava doida para sair fazendo críticas a esse modelo outro, mas eu voltei para mim mesmo e olhei para como eu me comportava há 10 anos  e percebi que eu já busquei molhos melhores. O resultado disso é sempre a insatisfação ou uma satisfação fulgaz. 


O encontro e a vivência num terreiro de Candomblé me trouxeram essa transformação. Especificamente o momento da iniciação, deitado numa esteira, num quarto sem janela, eu-com-eu-mesmo, eu constatei que a gente precisava de realmente muito pouco para existir com inteireza. 


E como Exu sempre tem razão, ele diz nesse provérbio yorubá: “Exu matou um pássaro ontem com a pedra que atirou hoje”. Anos depois, meu Babalorixá diz, ao saudar Ori (minha cabeça): Xangô diz que irá te completar. Não só isso, ele vai te transbordar. Talvez você não compreenda isso hoje, mas um dia você irá entender.” Eu achei lindo o que ele disse e compreendi. E compreendi que Xangô me completa e me transborda a cada momento, a cada novo ritual, a cada dia que ele toma meu corpo para contar suas histórias míticas. E ele me transborda “trocando” os conceitos de um velho pensar, sobretudo o que não é meu de fato, isso vai deixando de ficar comigo. E ele também me transborda também e faz sobrar força, energia, vitalidade para quem estiver por perto. 


Eu passei esse textão para dizer que eu votei em Lula para presidente. 

E que eu votaria de novo. E de novo. E de novo. 

Por uma simples razão: eu sou filho do Deus da Justiça. 

Monday, June 25, 2018

O EREMITA E SUAS EPIFANIAS



O Caboclo Sete Flechas foi a primeira entidade da Umbanda com quem me consultei. Há quase vinte anos, naquela casa estranha da Dona Jamile, a primeira mãe-de-santo que conheci. Com suas roupas brancas meio esfarrapadas, feitas com rendas sintéticas, usando aquele turbante estranho, “meio” árabe, ela dava passagem ao Caboclo Sete Flechas, com sua linguagem torta, seu palavreado que não era indígena, não era africano, nem português. Era, talvez, um tipo de “umbandês” que muitas vezes necessita de intérpretes. 

“Quando ele vem, lá do Oriente, ele vem com ordens de Oxalá, sua missão é muito nobre, espalhar a caridade e a seus filhos ajudar. Eu saravo Papai Xangô, Kaô, eu saravo Papai Oxalá, eu saravo Seu Sete Flechas ele é o nosso rei e o chefe desse kazuá”. 

Assim ele chegou naquela noite de sexta-feira. A filha de Dona Jamile fez a preleção do evangelho (que era a bíblia, na verdade) e, de repente, Sete Flechas estalava os dedos, para que ela parasse de ler. Lá estava a lição da noite, a sabedoria revelada através da bíblia, por um caboclo da Umbanda que usava turbante. 

E lá aprendi, pela primeira vez, a saudar uma entidade, batendo os punhos com os dele. Sete Flechas me disse que eu havia sido um eremita em várias vidas e que, nessas várias, eu largava a missão de curador e saía andando pelo mundo, procurando algo a mais, algo diferente. Até hoje não sei como isso acontece, mas aconteceu aquele dia: o caboclo leu a minha alma. E-r-e-m-i-ta. Era assim que eu me sentia. Secretamente, era assim que eu me denominava. Era desse modo que eu me via. Sem parada. Sem casa. Sem rumo. E ele disse que, por ter largado tantas vezes a missão de curador que eu passava por tantas dificuldades naquele momento, para terminar meus estudos. Mesmo que fosse metáfora ou fantasia, essa explicação serviu como um bálsamo para aquele peso que eu sentia. Ele me ofereceu uma explicação para a minha infelicidade. 

Sete Flechas terminava sempre a consulta perguntando: “Que quere yo, fio meu?”, que queria dizer “O que mais você quer de mim, meu filho?” e eu sempre respondia que não queria mais nada, e só queria agradecer. E ele partiu, dizendo que ia me ajudar. De fato, me ajudou muito. Hoje estou aqui, mais de vinte anos depois, vivo, formado, mestre, doutor, professor, muitas páginas de currículo, muitos diplomas. Mais que isso: sinto-me cada dia mais feliz e mais realizado. Mas isso não significa que não me sinta insatisfeito. Parece que essa insatisfação não acaba nunca. Não pensem que a minha insatisfação é de ganância, cobiça, esse afã tão comum entre colegas de profissão, essa avidez por acumular riquezas. Nada disso. É minha alma que permanece inquieta mesmo. 

Não é à toa que, ao concluir o mestrado, queria colocar na tese uma citação do Nietsche que não fosse pessimista. E eu encontrei: 

“Ninguém pode construir em teu lugar as pontes que precisarás passar, para atravessar o rio da vida - ninguém, exceto tu, só tu. Existem, por certo, atalhos sem números, e pontes, e semideuses que se oferecerão para levar-te além do rio; mas isso te custaria a tua própria pessoa; tu te hipotecarias e te perderias. Existe no mundo um único caminho por onde só tu podes passar.Onde leva? Não perguntes, segue-o!”

Também ao concluir o texto do meu doutorado, uma música da aula de religião do meu tempo de ginásio, chamada “Caminheiro” não saía da minha cabeça: 

“Perdido, confuso, vazio, sozinho na estrada, tentando encontrar um caminho que seja o meu, não importa se é duro, terei que buscar. Caminheiro, você sabe, não existe caminho. Passo a passo, pouco a pouco e o caminho se faz.” 

Sou eremita mesmo. Há uma solidão no meu caminhar, há uma necessidade de continuar sempre andando, que jamais se esgota. A citação do filósofo, a música da aula de religião, as palavras do caboclo. Tudo se traduz numa necessidade de caminhar em busca de algo que eu não sei – ou não sabia - exatamente o que é. Até mesmo outras frases e canções que falem desse caminhar incessante me prendem, me capturam. Sou pego pelo arquétipo do eremita, do andarilho solitário. 

I still haven’t found what I’m looking for. Eu ainda não encontrei o que estou procurando. Cantam Cher ou Bono para mim. 

Hoje, durante uma conversa com um amigo, essas memórias vieram à tona. Conversando sobre o Candomblé, sobre essa minha caminhada pela espiritualidade, ele “acordou” a minha memória. Ele chamou a minha atenção para o fato de que as minhas necessidades de busca, de curiosidade, de ímpetos, são lampejos, folguedos e explosões da minha memória ancestral. Depois de nossa conversa, fiz uma reflexão sobre essa longa caminhada nessa vida terrena. Brinquei, meio que falando sério, que devo ter saído da África muitas encarnações atrás, talvez arrancado, talvez fugido. Andei por tantos caminhos, embranqueci, diluí meu sangue negro por diversas vidas e trilhas. E de repente, eu me deparo com as religiões afro-brasileiras. Eu me lembro como se fosse hoje o primeiro dia que ouvi o som do atabaque no terreiro de Dona Jamile. Sem nenhum medo e com uma sensação de familiaridade inexplicável. Naquele momento eu pude entender tudo, ou quase tudo. Lembro de dizer para mim mesmo: “é aqui que eu quero ficar”. Esse “aqui” que não era aquele lugar, mas aquele lugar dentro de mim onde o som dos atabaques ecoava a minha própria alma. 

Agora, emocionado enquanto transformo esses pensamentos em frases, sou capaz de enxergar, de me sentir acordado, como Paulo dizendo aos Coríntios: “estou acordado e todos dormem”. Estou acordado, estou vivo, estou são. É no Candomblé que me reconecto a minha ancestralidade, é pisando no chão de um terreiro, descalço, ao som dos atabaques, que ativo essa memória e me sinto vivo, eterno, imortal. Eterno e imortal como alma. Eterno e imortal como as memórias de todas as vidas vividas, minhas e de meus ancestrais. É “virado” em meu Orixá, que refaço os caminhos dessa ancestralidade, que reavivo cada sensação já vivida, guardada nesse pequeno cofre de memórias eternas. 

Eu ainda não sei se eu me encontrei. Eu nem sei se esse encontro é definitivo ou se devo continuar andando pelo mundo, encontrando coisas e pessoas que reativam essa memória, que acordam minha pele, meu corpo, minhas células para a eternidade de uma vida sem vim, uma vida em espírito. 

Hoje, numa madrugada de segunda para terça, na transição dos domínios de Exu e de Ogun, orixás que regulam os nossos caminhos, das encruzilhadas às estradas, escrevo, desabafo, me tranquilizo ao poder compreender que tudo o que sinto e vivo é apenas caminho, caminhar, estrada, trilha. Todo esse barulho da minha alma, da minha cabeça e do meu coração é apenas o barulho dos meus passos. Não sei para onde vou, não sei exatamente como caminharei. Tenho apenas a certeza de que devo continuar, porque Xangô e Oxum me levam, porque eles sabem o que eu ainda não sei, porque não foi revelado.