Blog do Doutor Fofinho

"Tudo começou há algum tempo atrás na Ilha do Sol..." Há muitos anos eu montei esse blog, dando o nome "Le Cul du Tabou", inspirado por uma amiga, para falar sobre o tabu das coisas. Ganhei muitos seguidores, mas desde 2018 não escrevi mais nele. Estou retomando, agora com novo nome, o "Blog do Doutor Fofinho", muito mais a minha cara, minha identidade. Sejam bem vindos.

Saturday, May 23, 2026

Oh, Deus, por que falam tanto? - Sobre o barulho.


Por Marcelo Niel, o Doutor Fofinho.


Eu adoro conversar. Com meus amigos. Com as pessoas que conheço. Com as pessoas que gosto. Adoro trocar ideias; e aprendi, ao longo dos anos, a deixar de me calar, a expressar meus pontos de vista e a debater e discutir questões importantes. Acabou que hoje eu escrevo menos e falo mais.


Mas tem gente que deveria escrever mais. Muito mais. 


Hoje eu me inspirei em escrever diante de uma pessoa que falava demais dentro do avião, no assento ao meu lado. Cheguei e lá estava ela, com um fio de telefone enorme, falando muito alto sobre um imóvel que ela desejava comprar. Em cinco minutos, enquanto tentava removê-la do caminho para ocupar o meu lugar ao seu lado, decodifiquei toda a sua vida. E ela falava, falava, falava tanto que senti fadiga. E, além de falar barulhento, falou comigo. Daquele tipo de pessoa oitocentos por cento simpática e comunicativa que puxa assunto com você e não respeita o silêncio da manhã. 


Ela deve ser do agro.


Apertados, ela, eu no meio e um gigantão, prensados feito sardinhas esbaforidas no vôo da latam (latam, latão, lata, agora entendi) e ela falava. Mas Deus misericordioso e justo vagou um lugar ao lado de sua família agropop, infelizmente apenas duas fileiras à frente, muito, muito perto. 


E ela continuou falando. 


Por alguns instantes eu desfaleci, com a mente já exausta do estupor da manhã, porque fui dormir às três para acordar às oito. E eu acordei com o barulho dela. E ela se comunicava, contava histórias, interagia com outros passageiros, indicou músicas, falou do top trend do spotify e, sendo um hit sertanejo, confirmei: definitivamente ela é do agro.


Eu já imaginei que ela descerá em Brasília e pegará uma conexão para Goiânia e de lá os capangas da família os levarão de Hylux branca para Conceição do Rio Amarelo, ou algo parecido, nos confins do centro-oeste. 


Breve pausa para um silêncio enquanto ela cochila. Breve. Apenas breve.


0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0


Teve uma vez que peguei um avião de Orlando para São Paulo e me sentei naquelas fileiras com cinco ou seis assentos juntos, no meio. De um lado e do outro, famílias do interior de São Paulo voltavam animadas, conversando entre si sobre as aventuras vividas na Disney. E assim eu pude conhecer todos os brinquedos, até mesmo os que eu não quis ir. E o vovô? Ah, o Vovô era extremamente simpático, do tipo que cutuca e aperta a gente quando fala sem nem conhecer. 


Eu, prensado entre duas famílias agro-friendly da nata paulista ouvindo sobre todas as montanhas-russas de todos os parques da disneyuôrdy.


0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0


Pausa para ouvir a pessoa agro-pop do meu primeiro mini-relato entoando uma canção de ninar para a neta já ninada ao meu lado. Ela nina a neta ninada e desnina a gente ao redor. 


0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0


E voltemos para o Vovô do cinturão monocultor do noroeste paulista. Poxa vida, ele não me dava paz. Toda hora me cutucando, puxando algum assunto. Com ele eu revisitei toda a porção off-park de Orlando: as comidas, o restaurante de quilo de comida brasileira, os altilétis com os 48 bonés de cores variadas que ele comprou para presentear os 36 sobrinhos e os 12 capatazes da fazenda do seu genro. 


Jantamos e ele comentava sobre as diferentes comidas do avião, perguntava se a comida estava boa, se o refrigerante estava gelado e se era verdade que a gente peida mais no avião. A cada nova cutucada, eu respondia uma monofrase, esperando que ele entendesse minha escassez como uma indisponibilidade. Mas nada detinha  o vovô. E a cada nova história dele, mais íntimo ele se sentia. E passou a começar as frases com “Olha, meu filho…” 


E então eu comecei a minha montação hypno-drag: earplugs, tapa-olhos, protetor de pescoço e cobertorzinho-de-avião, Frontal®️ e Miosan®️. Mas nada detinha o vovô. Ele continuava me cutucando e falando coisas que eu já não ouvia mais e eu ainda respondia com um sinal de joia, o que hoje compreendo como um erro grave de prorrogação de diálogo. Minha terapeuta da época me diria que era meu lado destrutivo que alimentava essa conversa, mas eu não levei esse assunto pra análise. 


Em algum momento eu me virei, de bunda mesmo, contra o vovô. E mesmo assim ele ainda me cutucou algumas vezes, mas em algum momento ou ele parou ou eu não senti mais nada. La Belle Indifference das Belas Adormecidas por hipnóticos.


0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0


E essa falação toda me fez lembrar dos motoristas de aplicativos e táxis que precisam conversar o tempo todo do trajeto. E também dos dentistas que puxam assuntos complexos enquanto nossa boca está aberta, preenchida com algodões que não podemos molhar, gazes que não podemos contaminar e afastadores que não conseguimos retirar. 


0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0


Voltamos para a família agropop do primeiro avião. 


Agora é o vovô, com a voz ardida de Kenny Rocha ensinando a neta falar “vovô cagô, vovô cagão”, “o boi cagô no mato”, “o boi cagão cagou cocô no mato, sô”. Daí eu vejo como a gente impulsiona as mutações genéticas a partir de comportamentos disfuncionais que vão atravessando as gerações. O agro é pop e é hereditário e você herdará tanta chatice quanto hectares e cabeças de bois cagões possuir. 


E a criança despencou a gritar. Quando mais gritava, mais o avô ria e a estimulava, cantando a música do cocô. Gritos estridentes e irritantes, deu pra compreender de que jeito vovô e vovó vão criando seres abjetos propensos ao grito. 


Olhei feio algumas vezes para o vovô, fiz careta de demônio desencontrado várias vezes para a capeta e nada surtiu efeito. A minha salvação foi pedir guardanapos para a comissária e entupir meus ouvidos até não ouvir mais os estalidos daquela demoníaca criatura. Fiquei tão surdo que até me desorientei ao sair no avião. Não ouvi os anúncios, não sabia pra onde ir, esqueci onde coloquei a bagagem. O silêncio é uma droga que deve ser consumida com moderação.


0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0


Crianças têm impulsos e possuem seus momentos, compreendo. Mas comportamentos tenebrosos como esses devem ser corrigidos por papais e vovôs. Mas o que fazer quando papais e vovôs consideram esses comportamentos normais e ainda estimulam? 


0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0–0-0


Certa vez, no ônibus de Eunápolis a Salvador, na cabine do leito-cama, duas senhoras de birote evangélico conversavam. Desde antes do ônibus partir elas conversavam ininterruptamente sobre as maravilhas maravilhosas de Deus em suas vidas. Oh, Glória. 


Eu havia suposto a religião das senhoras pelo birote e, de fato, o parlatório confirmou e glorificou a presença das abençoadas.


E então um senhor à minha frente fez por ele e por mim:


  • Caras senhoras, eu comprei essa passagem cara no leito-cama noturno justamente para poder dormir. Então é melhor a gente trocar de lugar e vocês se sentam juntas para poder conversar, mas já lhes peço para conversarem baixo porque senão vamos ter problema.


Ele, firme e educado na mesma medida, resolveu o problema por quase toda a viagem. Mas às cinco da manhã elas voltaram a cacarejar sobre as obras de Jesus e daí foi minha vez de fazer o martelo de Xangô cortar o mal pela raiz:


  • Senhoras, por gentileza, são cinco da manhã e ainda temos quase três horas de viagem; por favor respeitem os passageiros. 


Sei dizer que elas abaixaram o tom.


0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0


Cachorros também falam muito em suas línguas próprias. Eu entendo que uma pessoa pode precisar transportar  um cachorro numa viagem de ônibus devido, por exemplo, a uma mudança de cidade. Mas eu espero que esse Jesus misericordioso das crentes da outra viagem me faça acreditar nisso e não pensar que uma pessoa possa levar um cachorro numa viagem noturna de ônibus de oito horas de duração para passear com ele na casa de mamã. 


Seja lá o motivo da viagem, se eu fosse dono do cachorro, daria sedativos, pensando nas pessoas e no próprio animal, estressado com a mudança de ambiente e por estar trancado numa gaiola ínfima, mesmo que seja forrada de matelassê dourado e couro de bode albino e mocho da Carmen Steffens. 


O ônibus tava todo escuro e eu nem enxergava o doguinho e nem sabia quem era o seu cruel tutor. Só sabia dizer que era um latido estridente, quase mais irritante que o invencível grunhido da netinha do agro. Era latido daqueles cachorros peludinhos daquelas mulheres que levam cachorros peludinhos em restaurantes e shoppings.


E o doguin latia, latia, latia. Mais do que a vovó do agro, mais do que as cacarejadeiras de jeová. E trinta e cinco mil latidos depois e meia noite e lá vai fumaça, meu eu selvagem despertou em fúria e gritou: 


  • Porra, faz esse cachorro calar a boca, cacete! É mais de meia-noite!


E a Barbie Sem Noção respondeu furiosa e espumante:


  • Ele não tem culpa! E eu tenho direito de estar aqui! E cala a boca você que eu não vou deitar pra macho escroto!


ADENDO: Uma amiga preta me ensinou que as patricinhas-sinhás (olha que coisa linda de trocadilho que acabei de encontrar nessa palavra “patri” de patriarcado e sinhás, que não carece de explicação, ou seja, as sinhás do patriarcado!), continuando… que as sinhás, quando são confrontadas por homens, mesmo que não tenham nenhuma razão, sempre recorrerão à opressão do patriarcado para rejeitarem qualquer tipo de discussão em que elas não tenham razão.


  • Moça, eu não tinha como saber quem é o dono desse cachorro pra praticar violência de gênero. O que acontece é que são quase uma da manhã e as pessoas precisam descansar porque é uma viagem noturna. Então faz esse cachorro calar porque senão eu vou lá falar com o motorista e a senhora vai ter que saltar desse ônibus. 


Só sei que uma mágica aconteceu e nem ela e nem o cachorro deram mais um pio. E todos dormiram confortavelmente todo o resto da viagem. Ninguém me aplaudiu e nem apoiou na hora, mas o silêncio reinou.


0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0


Eu me auto-diagnostiquei como portador de transtorno de déficit de atenção há vários anos. Eu também me auto-medico com sucesso, mas o transtorno é uma besta-fera que, mesmo enjaulada, baba, cospe fogo e roça a língua pontuda nas orelha. É como eu disse uma vez para um paciente: “tomar medicação pro TDAH não te fará um lorde inglês”. 


Tem um amigo psicólogo que, em nossas conversas, cismou que eu tenho várias características de autismo. Eu R-E-F-U-T-E-I. Sim, eu tenho três sintomas, apenas três, mas isso não me torna autista. 


O primeiro deles é a rigidez, que adoro chamar de TEIMOSIA. Eu não nasci assim, mas sou possuidor de uma teimosia crônica que é resultado de um longo aprendizado em estabelecer meus limites. Eu realmente detesto abrir mão das minhas opiniões. Sou réu confesso.


O segundo deles é a aversão ao toque. Mas não é qualquer toque. Eu adoro carinho, beijo, abraço, tocar e ser tocado por pessoas que eu considero. Mas… eu detesto essas pessoas que falam pegando na gente o tempo todo, que seguram a gente enquanto falam e que puxam a gente sem permissão pra falar mais perto. 


O terceiro e último é fonofobia. Ao mesmo tempo que eu adoro produzir barulho, batucar, chacoalhar, transformar qualquer objeto em instrumento de percussão, eu não gosto de ambientes barulhentos, falação ao meu lado, conversas paralelas e eu explico: essas coisas me distraem e eu preciso fazer um enorme esforço para manter o meu foco numa atividade central. 


Pensem o que quiserem, meu transtorno, minhas regras. Desses três, eu desabafei com vocês o tema BARULHO, na forma de falação e grito.


Mas eu sigo, sempre “de mãos dadas com os perigos”, como diria Sophia de Mello. Essas coisas me atrapalham, mas não me incapacitam; consigo conviver fugindo delas, mas viveria muito melhor sem elas. E eu então eu me lembro que o mundo é esse negócio complicado de administrar, cheio de desafios, divergências e incoerências. 



Thursday, May 21, 2026

SOBRE GHOSTING

 “Eu não sei quem sou. Sem me sentir banida, experimento degredo”

(Adélia Prado, “A face de Deus é vespas”)


Sobre Ghosting


Por Marcelo Niel


Eu não vou usar definições da literatura pra falar sobre isso. Eu vou falar com o coração.


Eu sempre fui muito apaixonado. Eu construí as minhas expectativas sobre o amor e a realização afetiva baseada na perspectiva do amor romântico, monogâmico. 


Mesmo que eu estivesse dentro de um relacionamento - sexualmente - aberto e mesmo que os encontros decorrentes desse acordo pudessem suscitar algumas “derrapadas” afetivas de envolvimento sentimental, a minha perspectiva do “relacionamento principal” era totalmente monogâmica. 


Nesse relacionamento eu experimentei toda a calhordice que uma pessoa pode ter e ser em seu mais puro estado de perversidade. Ele ganhou em nível de psicopatia e narcisismo do meu - in memorian - genitor. Depois eu vivi pra ouvir nas minhas últimas sessões de análise que eu encontrei nesse cara com quem me relacionei a cornucópia da psicopatia do meu genitor.


Não, pessoas, não foi o analista quem falou. Eu vivi pra ouvir isso saindo de dentro da minha própria boca. Gag de la gag. 


Apesar de tudo de pior que eu passei, uma coisa eu devo admitir: nesse relacionamento eu aprendi que open relationship é algo muito diferente de não monogamia. E eu tenho que confessar que eu não soube segurar a onda de não ter controle sobre o desejo do outro.


A pomba-gira de um amigo me falou um dia: “ Eu vou te falar uma coisa que você vai entender porque você é inteligente: a areia pra gente segurar com a mão, tem que apertar muito”


E eu senti raiva dela. Eu entendi o recado, e senti raiva dela. Debochei. Cheguei a me sentir castigado. Mas ela estava certa. Eu queria possuir a impossível areia.


E por que diacho estou falando desse cara? 


Porque eu preciso lembrar que passei pelas piores situações exceto uma: ghosting. Pelo contrário, o psicopata era uma sombra. 


Mas ghosting não é bom não.


Me imaginei agora no grupo de auto-ajuda dos Assombrados Anônimos: 


“Eu sou Marcelo, tenho 52 anos e tomei recentemente o meu primeiro ghosting”


Cinquenta e dois anos. 


Não tem vergonha? 


Tenho um pouquinho.


Mas a vida é assim mesmo.


Ghosting, vem de ghost, fantasma em inglês. Ninguém achou uma palavra boa na última flor do láscio, então ficou ghosting mesmo. Mas é um tipo de desaparecimento. É quando a pessoa desaparece, toma chá de sumiço sem nem ao menos dar uma satisfação ou uma explicação. Ela simplesmente finaliza unilateralmente uma relação. Isso pode acontecer em diversos tipos de relações, mas é bastante comum em relacionamentos afetivos, e parece que homens dão mais gosthings que mulheres, de acordo com minhas breves pesquisas.


“Eu sou Marcelo, tenho 52 anos e tomei recentemente o meu primeiro ghosting”


Lembra que eu comecei falando que eu edifiquei meu predinho afetivo baseado em relações monogâmicas e que sempre gostei desse frisson de me apaixonar?


Pois bem. Depois de 3 casamentos e 2 namoros sérios que quase viraram casamentos, de algum modo algo em mim parecia ter mudado e eu achei que essa onda tinha acabado. Eu até passei a dizer que me entendia hoje  como não-monogâmico (chique, né?) e parecia que não estava disposto a me relacionar novamente. E ainda bradava: acho que encerrei a fábrica, mas se eu tiver um novo relacionamento, vai ser aberto e não-monogâmico. (Durma-se com um barulho desses que eu agora aprendi que é preciso binomear essa bagaça)


E então ele chegou. 


Estava recém chegado de uma  viagem a Salvador e esse cara me chamou no app. Disse que tinha visto meu perfil, mas depois percebeu que eu estava longe. E desse papo engatamos um papo incrível que virou paixão. Encurtando a história, nos encontramos pessoalmente após alguns dias e eu fiquei tão apaixonado que já queria casar. Nos despedimos trocando intensos afetos e continuamos a conversa por alguns dias e…pluft! Desapareceu. 


Esperei um dia


Esperei 2 dias


Esperei 3 dias


De repente me bateu uma culpa enorme. E se tiver acontecido algo com ele? Olhei os stories e lá estava, vivo, postando uma poesia melancólica. Ufa, pelo menos estava vivo.


Passei dias, pensando, pirando, revendo mensagens, analisando gestos, pensando em algo que eu  pudesse ter feito de errado para explicar o sumiço. SUMIÇO. Taí a palavra para traduzir ghosting.


I love u Brazil!


Alguns dias mais e eu não me aguentei. Fiz um texto lindo, denso e complexo como minha alma, meio batendo em retirada.


E ele apareceu. Pediu desculpas, alegou problemas pessoais. 


“Tem certeza que você não é casado e estava naqueles períodos  de entressafra, casa-separa? Eu estou preparado para ouvir qualquer coisa, desde que seja verdadeira” 


“Quero ficar com você”


E seguimos mais uns dias de conversa. Amenas, gostosas, apaixonadas. Planejando o próximo encontro. Cheguei a me sentir culpado. Cheguei a pensar que ele possuísse alguma neurodivergência e que tinha entrado em shutdown.


E de repente, some de novo. 


Curioso, não sei se é sempre assim, mas com ele foi: o sumiço se deu após uma frase corriqueira. Tipo: “Bom dia, dormiu bem? Está melhor da sua dor no pescoço?”


Eu nunca soube a resposta.


Mas eu também entendi. 


“Eu sou Marcelo, tenho 52 anos e tomei recentemente o meu primeiro ghosting”


Hoje se completam 47 dias que eu fiquei sem saber se a dor no pescoço havia melhorado. Eu não sou de fazer essas contas, mas eu me lembrei que nosso último papo havia sido na páscoa. 


Eu sofri bastante nos primeiros dias, chorei com músicas tristes e com desenhos animados fofos. Mas apesar de gostar de perigo, tem um senso de inteireza que bate em mim e levanta a minha cabeça. Como naqueles filmes em que o herói pega aquele ultimo suspiro e se levanta para enfrentar o inimigo. Igual em Kill Bill, quando a Kiddo soca aquele caixão até conseguir se libertar  e sair do buraco.


E por falar em último suspiro, a partir de amanhã começo a fazer aquela maluquice do vácuo abdominal. Sigam-me para mais dicas. 


“Eu sou Marcelo, tenho 52 anos e tomei recentemente o meu primeiro ghosting”


Gente, ghosting ou chá de sumiço não é legal não. Não que eu desacreditasse, mas eu realmente não conseguia captar a dimensão e as consequências para o nosso psicológico. Mas agora eu sei.


E hoje compreendo muito mais aquelas mães cujos filhos foram assassinados e que passam anos esperando para localizar o corpo. Sim, eu já ouvi isso. “Eu sei que ele não está vivo. Mas eu quero ver o corpo dele para tirar essa agonia de dentro de mim.” 


E o que leva alguém a fazer ghosting?


Não sei. Não me interessa. Só digo: não faça. 


Explique, mesmo que seja mentira.