Blog do Doutor Fofinho

"Tudo começou há algum tempo atrás na Ilha do Sol..." Há muitos anos eu montei esse blog, dando o nome "Le Cul du Tabou", inspirado por uma amiga, para falar sobre o tabu das coisas. Ganhei muitos seguidores, mas desde 2018 não escrevi mais nele. Estou retomando, agora com novo nome, o "Blog do Doutor Fofinho", muito mais a minha cara, minha identidade. Sejam bem vindos.

Saturday, June 13, 2026

La Bruja


“Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay”


Eu nasci e cresci num universo feminino. 


Breve pausa para o insight. Escrevendo isso eu me lembrei que eu passei a vida toda equivocado: meu avô Armando foi uma presença masculina importante, respeitosa, digna e era como se isso não tivesse ficado registrado na minha caminhada. Refletindo agora, acho que tudo o que eu entendia como masculino era simplesmente tudo o que era tóxico. Meu pai, meus tios, meus primos, meus colegas de escola, meus professores: todos exalavam agressividade, misoginia e homofobia. Mas meu avô não. Ele não era perfeito, eu sei.  Um dia, um namorado, me ouvindo falar do amor e do respeito que sentia, deu uma de psicólogo e me disse:


“Sei não. Eu penso que se você conhecesse seu avô de verdade, talvez ele não seria tão seu ídolo assim”.


Eu odiei ele mil vezes por ter tido isso. Porque ele não conhecia meu avô. Mas também porque talvez ele tivesse alguma razão em algum ponto. Mas meu avô não agredia verbal ou fisicamente mulheres. Meu avô, apesar de sua safadeza, não falava coisas inadequadas sobre mulheres, não fazia “piadas” machistas, não oprimiu suas filhas. Eu nunca vi meu avô falando algo sobre corpos femininos.


Certo dia uma amiga disse que me admirava porque, ainda que gay, eu era um homem que amava as mulheres. Não, eu não sou santo protetor das mulheres e já cometi muitos erros, ainda cometo alguns. Mas eu sigo tentando aprender a ser um homem menos pior. 


E boa parte do homem que eu sou que é capaz de respeitar as mulheres, aprendi com meu avô. Sem nenhuma explicação. Mas, do mesmo jeito que eu copiava seu barbear com espuma de barba e um barbeador de mentira: por imitação e admiração. Eu o amava e o admirava tanto que desejei, inclusive, ser fisicamente igual a ele.


E agora voltemos ao mundo das mulheres. 


Mesmo com a existência do meu avô em minha vida, talvez ele não tenha sido suficiente para me salvar da crueldade masculina. Talvez houvesse em mim um cruel medo de não ser amado por ele se ele soubesse que eu era gay. Eu jamais soube, pois ele não viveu para me contar como teria sido para ele saber que seu neto predileto era gay.  Porque embora todos me chamassem pelas costas do “segundo viado da familia”, eu jamais ouvi uma palavra de sua boca sobre isso.


Eu estou tentando adentrar o mundo das mulheres, mas só consigo pensar em meu avô. Que saudades eu sinto, que falta eu sinto do abraço dele, de beijar a bochecha e tocar aquela barba branca e sedosa. 


Mas meu medo de existir como sou era tão grande que o mundo das mulheres era meu maior refúgio. Isso não é incomum entre homens gays. Eu me lembro do quanto admirava as roupas, as maquiagens, os acessórios. Eu penso que eu não cheguei a experimentar algum tipo de dúvida sobre meu gênero, mas eu me lembro claramente como me sentia poderoso quando usava alguns acessórios de minha mãe ou das minhas tias. Era como se, vestindo aquelas coisas, totemizasse uma super heroína capaz de me proteger de todas as ameaças. 


Eu nem sei se as mulheres realmente me protegiam. Perdão, mulheres, pode soar ingrato. Mas estou flertando agora com a possibilidade de ter eu mesmo criado esse refúgio nesse universo, um ginecobunker à prova de homens, como a garrafinha mágica de Jeannie. Nele, eu, invisivel, lavando louças, enrolando brigadeiros e acompanhando as tias em lojas de roupas, costureiras e cabeleireiras, como aquela princesa travesti honrosamente escolhida para cuidar da família.


Mas eu resolvi falar das mulheres-bruxas da minha vida. Mesmo rodeado de muitas mulheres, a maioria delas não trouxe boas lições. Porque mulheres conservadoras, mesmo com outras tintas e matizes, reproduzem modos machistas de ver o mundo. Eu até acho que mesmo essas mulheres-bruxas traziam consigo um tanto de pernicioso machismo. Mas havia viva nelas uma robusta porção ancestral de uma existência livre. 


Bruxas ou não, as mulheres me mimaram de algum modo enquanto o universo masculino em geral me execrava. E isso me causou medos e machucados tão profundos que demorei muito para conseguir desenvolver relqções saudáveis, de amizade e confiança, com homens, sobretudo os não-gays. 


Mas as mães-bruxas me protegeram e asseguraram de algum modo, a minha sobrevivência. E as “menos visíveis”, as Mães Ancestrais, as Feiticeiras, as Pomga-giras, já estavam comigo. Mesmo sem conhecê-las, mesmo sem crer nelas, elas já me guiavam e me protegiam como mães de verdade devem fazer. 


Sete Saias, minha pomba-gira cigana, foi a primeira grande-mãe do mundo espiritual que tive consciência plena de sua chegada. Um abraço feminino maternal e erótico numa existência outrora tão frágil.


E por qual motivo estou falando das bruxas da minha vida?


Porque há alguns dias, em Salvador, encontrei uma, muito especial. Já havíamos nos conhecido há pouco mais de ano aqui em Arraial d’Ajuda, quando ela veio com o uns amigos assistir um show. E me lembro quando fui encontrá-los na praia e ela falou: “Eu to vendo Xangô e ele é muito bravo”.


Demorou todo esse tempo para que pudéssemos nos encontrar e eu fizesse uma sessão de massagem com ela. Chegando em sua casa, um abraço caloroso e afetuoso ao abrir a porta, uma pequena conversa sobre meu corpo, meus signos, meus caminhos.


“Ah, você é de escorpião com ascendente em touro, nasceu às 18h. Você olha para o por-do-sol, você olha para as profundezas da vida, seu olhar está voltando para a noite escura”.


Eu nunca havia olhado a hora do meu nascimento nessa perspectiva. Eu nunca havia pensando sobre como a minha alma acorda nessa hora.


E depois ela falou: você é boi no chinês. Esse ano temos que tomar cuidado com as trombadas da vida, porque é o ano do cavalo de fogo. O boi não compete com o cavalo, mas ele pode atrapalhar o caminho e ser derrubado. Principalmente as amazonas com sua fúria. E imediatamente eu me transportei para o início desse ano, que comecei já me sentindo pisoteado pelo movimento da vida. E esses meses têm sido duros. Meu corpo endureceu, cheio de tensões, insônias e infelicidades. Minha tendência ao ser engolido pela vida é querer fugir, mudar a rota, mas eu não quero fugir desse lugar que construí. Será que subo na garupa da amazona do Fire Horse ou deito na estrada para descansar e refletir? 


E veio a massagem.


A bruxa soltou minhas tensões e, enquanto ela desatava os nós do meu corpo, eu desfaleci, como o boi no meio da estrada. Mas enquanto meu corpo repousava, minha alma subiu na garupa do cavalo de fogo e foi passear. Passamos por tantos rincões da minha vida, e fui entendendo que o cavalo veio para me conduzir, não para me derrubar.


Como eu sempre digo às pessoas que passam por mim, se a gente não leva a vida, a vida leva a gente. E que Iansan, que é o próprio pulso da vida, nos leve, mas não nos derrube.


A bruxa me ensinou novos feitiços de bem viver. Nas suas doces palavras e nas mãos firmes e enérgicas, me trouxe revelações sobre mim mesmo que, mesmo que eu já tivesse de algum modo acessado, não havia nomeado.


Bruxarias são atos de amor. 


Tá. Talvez nem sempre. 


Mas a figura da bruxa medieval, velha, nariguda e de cabelo desgrenhado é uma representação machista, colonial e misógina da potência do feminino, a gente ponto de nem conseguirmos enxergá-la como uma sábia anciã. 


Hoje pela manhã eu realizei mais uma vez meu ritual de comprar balas de goma do ambulante da balsa. As balas de goma foram por muitos anos e ainda são, no meu imaginário afetivo, pílulas encantadas de amor que vinham pelas mãos de uma tia-avó. Por muitos anos ela me presenteou, ao final de cada almoço ou jantar, com um pequeno pacote de balas de goma que ficavam escondidos atrás do porta-retratos. A surpresa que não era surpresa, mas que trazia sempre um pó açucarado de amor e alegria. 


Eu pensei em tudo isso nesses dias, refletindo sobre os amores que curam. 


Bruxarias curativas.


Encantarias curativas de amor. 


Eu não sei como teria chegado até aqui se não fosse o amor que eu recebi, mas também o amor que eu dei, e dou, pras pessoas em volta de mim. Eu não falo isso de um lugar de poder, soberba. Eu falo isso porque eu tento praticar o que eu acredito, a fé que eu professo: axé é energia em trânsito que sobrevive sendo multiplicada e dividida, como esses fermentos que produzimos artesanalmente. Axé é energia de cura manipulada - manejada - modificada com as mãos e distribuída. 


Hoje vou abraçar Oxum.


Hoje vou abraçar Ndandalunda.


Hoje vou receber amor e amar.

Sunday, June 07, 2026

Hoje é seu dia.

(Eu escrevi esse texto no dia 22/04/2026, mas não havia postado até então)

“Ontem eu tive esse sonho / nele encontrava com você / não sei se sonhava  o meu sonho / ou se o sonho eu eu sonhava era seu / Um sonho dentro de um sonho e ainda nem sei se acordei / nesse sonho que era imagem e som pra saber o que foi que aconteceu” (Sonho, de Joyce Alane)


Hoje é dia do descobrimento. Mais uma mentira que nos contaram. Porque a gente cresce aprendendo mentiras e segue acreditando nelas e mesmo que alguém nos desvele a verdade, podemos escolher nos manter alienados.


Terra plana, vacina  com chip, mamadeira de piroca, nazismo de esquerda, democracia racial e o descobrimento do Brasil. Tantas inverdades que não cabem num primeiro de abril só. É por isso que inventaram o 22, porque é quatro vezes  o dia da mentira. 


Um amigo postou que hoje é o Dia da Terra. Olha outra falácia, bem no 22. Daí eu escrevi: 


“Aqui hoje é o Dia da terra roubada!”


E ele:


“É sério isso?”


Eu me ri e expliquei. Morando em Porto Seguro, aprendi coisas que nunca vi em São Paulo, como um grupo de pessoas que tem um orgulho extremado por esse dia. Tem até slogan da prefeitura:


“O Brasil nasceu aqui”


Um colega de trabalho sugeriu que todos nós que morávamos na “Costa do Descobrimento” deveríamos adotar o sobrenome Cabral, em louvor a Pedro. Veja, eu já gastei uma nota tirando o sobrenome de um agressor, dado a mim no dia do meu nascimento sem poder de escolha, por que diabos haveria de adotar outro? 


Resumindo: 22 de abril, o dia de uma grande mentira.


E falando sobre a mentira, eu fico pensando em toda a engrenagem da mentira e dos mentirosos. Mas eu não posso culpá-los ou transformá-los; preciso aprender a me manter longe deles.


Eu nasci de pais mentirosos. Eu cresci vendo-os mentir, um para o outro, para nós filhos e para as pessoas as redor. Até minha origem, minha concepção, meu nascimento, tudo foi tratado de uma forma mentirosa. E a grande mentira, a maior de todas, era alegarem que mentiram para proteger. 


Isso me fez ter asco da mentira. 


E, embora não gostasse da mentira, percebo que acabei tendo, na vida, sobretudo afetiva, um certo “tropismo” por pessoas mentirosas. Eu namorei e casei com algunsmentirosos, eu  estive sob o comando de sacerdotes mentirosos, e tive amizades significativas com mentirosos. 


E eu sou filho de Xangô, o Orixá da verdade.


Sim, eu já menti. E me arrependi muito por isso. Porque depois eu senti a navalha da verdade rasgando a carne da existência. 


Dizem que Xangô faz fogueira com os ossos do mentiroso. Não desejo, mas apreciarei o evento. Porque a verdade é um caminho tão reto e me parece tão simples de ser seguido. Porque quando a gente escolhe esse caminho, as coisas passam a ser simplesmente o que são, sem excessos ou faltas, sem ilusões. 


Hoje se passaram muitos dias  do dia 22, o novo dia da mentira. 

Saturday, May 23, 2026

Oh, Deus, por que falam tanto? - Sobre o barulho.


Por Marcelo Niel, o Doutor Fofinho.


Eu adoro conversar. Com meus amigos. Com as pessoas que conheço. Com as pessoas que gosto. Adoro trocar ideias; e aprendi, ao longo dos anos, a deixar de me calar, a expressar meus pontos de vista e a debater e discutir questões importantes. Acabou que hoje eu escrevo menos e falo mais.


Mas tem gente que deveria escrever mais. Muito mais. 


Hoje eu me inspirei em escrever diante de uma pessoa que falava demais dentro do avião, no assento ao meu lado. Cheguei e lá estava ela, com um fio de telefone enorme, falando muito alto sobre um imóvel que ela desejava comprar. Em cinco minutos, enquanto tentava removê-la do caminho para ocupar o meu lugar ao seu lado, decodifiquei toda a sua vida. E ela falava, falava, falava tanto que senti fadiga. E, além de falar barulhento, falou comigo. Daquele tipo de pessoa oitocentos por cento simpática e comunicativa que puxa assunto com você e não respeita o silêncio da manhã. 


Ela deve ser do agro.


Apertados, ela, eu no meio e um gigantão, prensados feito sardinhas esbaforidas no vôo da latam (latam, latão, lata, agora entendi) e ela falava. Mas Deus misericordioso e justo vagou um lugar ao lado de sua família agropop, infelizmente apenas duas fileiras à frente, muito, muito perto. 


E ela continuou falando. 


Por alguns instantes eu desfaleci, com a mente já exausta do estupor da manhã, porque fui dormir às três para acordar às oito. E eu acordei com o barulho dela. E ela se comunicava, contava histórias, interagia com outros passageiros, indicou músicas, falou do top trend do spotify e, sendo um hit sertanejo, confirmei: definitivamente ela é do agro.


Eu já imaginei que ela descerá em Brasília e pegará uma conexão para Goiânia e de lá os capangas da família os levarão de Hylux branca para Conceição do Rio Amarelo, ou algo parecido, nos confins do centro-oeste. 


Breve pausa para um silêncio enquanto ela cochila. Breve. Apenas breve.


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Teve uma vez que peguei um avião de Orlando para São Paulo e me sentei naquelas fileiras com cinco ou seis assentos juntos, no meio. De um lado e do outro, famílias do interior de São Paulo voltavam animadas, conversando entre si sobre as aventuras vividas na Disney. E assim eu pude conhecer todos os brinquedos, até mesmo os que eu não quis ir. E o vovô? Ah, o Vovô era extremamente simpático, do tipo que cutuca e aperta a gente quando fala sem nem conhecer. 


Eu, prensado entre duas famílias agro-friendly da nata paulista ouvindo sobre todas as montanhas-russas de todos os parques da disneyuôrdy.


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Pausa para ouvir a pessoa agro-pop do meu primeiro mini-relato entoando uma canção de ninar para a neta já ninada ao meu lado. Ela nina a neta ninada e desnina a gente ao redor. 


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E voltemos para o Vovô do cinturão monocultor do noroeste paulista. Poxa vida, ele não me dava paz. Toda hora me cutucando, puxando algum assunto. Com ele eu revisitei toda a porção off-park de Orlando: as comidas, o restaurante de quilo de comida brasileira, os altilétis com os 48 bonés de cores variadas que ele comprou para presentear os 36 sobrinhos e os 12 capatazes da fazenda do seu genro. 


Jantamos e ele comentava sobre as diferentes comidas do avião, perguntava se a comida estava boa, se o refrigerante estava gelado e se era verdade que a gente peida mais no avião. A cada nova cutucada, eu respondia uma monofrase, esperando que ele entendesse minha escassez como uma indisponibilidade. Mas nada detinha  o vovô. E a cada nova história dele, mais íntimo ele se sentia. E passou a começar as frases com “Olha, meu filho…” 


E então eu comecei a minha montação hypno-drag: earplugs, tapa-olhos, protetor de pescoço e cobertorzinho-de-avião, Frontal®️ e Miosan®️. Mas nada detinha o vovô. Ele continuava me cutucando e falando coisas que eu já não ouvia mais e eu ainda respondia com um sinal de joia, o que hoje compreendo como um erro grave de prorrogação de diálogo. Minha terapeuta da época me diria que era meu lado destrutivo que alimentava essa conversa, mas eu não levei esse assunto pra análise. 


Em algum momento eu me virei, de bunda mesmo, contra o vovô. E mesmo assim ele ainda me cutucou algumas vezes, mas em algum momento ou ele parou ou eu não senti mais nada. La Belle Indifference das Belas Adormecidas por hipnóticos.


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E essa falação toda me fez lembrar dos motoristas de aplicativos e táxis que precisam conversar o tempo todo do trajeto. E também dos dentistas que puxam assuntos complexos enquanto nossa boca está aberta, preenchida com algodões que não podemos molhar, gazes que não podemos contaminar e afastadores que não conseguimos retirar. 


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Voltamos para a família agropop do primeiro avião. 


Agora é o vovô, com a voz ardida de Kenny Rocha ensinando a neta falar “vovô cagô, vovô cagão”, “o boi cagô no mato”, “o boi cagão cagou cocô no mato, sô”. Daí eu vejo como a gente impulsiona as mutações genéticas a partir de comportamentos disfuncionais que vão atravessando as gerações. O agro é pop e é hereditário e você herdará tanta chatice quanto hectares e cabeças de bois cagões possuir. 


E a criança despencou a gritar. Quando mais gritava, mais o avô ria e a estimulava, cantando a música do cocô. Gritos estridentes e irritantes, deu pra compreender de que jeito vovô e vovó vão criando seres abjetos propensos ao grito. 


Olhei feio algumas vezes para o vovô, fiz careta de demônio desencontrado várias vezes para a capeta e nada surtiu efeito. A minha salvação foi pedir guardanapos para a comissária e entupir meus ouvidos até não ouvir mais os estalidos daquela demoníaca criatura. Fiquei tão surdo que até me desorientei ao sair no avião. Não ouvi os anúncios, não sabia pra onde ir, esqueci onde coloquei a bagagem. O silêncio é uma droga que deve ser consumida com moderação.


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Crianças têm impulsos e possuem seus momentos, compreendo. Mas comportamentos tenebrosos como esses devem ser corrigidos por papais e vovôs. Mas o que fazer quando papais e vovôs consideram esses comportamentos normais e ainda estimulam? 


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Certa vez, no ônibus de Eunápolis a Salvador, na cabine do leito-cama, duas senhoras de birote evangélico conversavam. Desde antes do ônibus partir elas conversavam ininterruptamente sobre as maravilhas maravilhosas de Deus em suas vidas. Oh, Glória. 


Eu havia suposto a religião das senhoras pelo birote e, de fato, o parlatório confirmou e glorificou a presença das abençoadas.


E então um senhor à minha frente fez por ele e por mim:


  • Caras senhoras, eu comprei essa passagem cara no leito-cama noturno justamente para poder dormir. Então é melhor a gente trocar de lugar e vocês se sentam juntas para poder conversar, mas já lhes peço para conversarem baixo porque senão vamos ter problema.


Ele, firme e educado na mesma medida, resolveu o problema por quase toda a viagem. Mas às cinco da manhã elas voltaram a cacarejar sobre as obras de Jesus e daí foi minha vez de fazer o martelo de Xangô cortar o mal pela raiz:


  • Senhoras, por gentileza, são cinco da manhã e ainda temos quase três horas de viagem; por favor respeitem os passageiros. 


Sei dizer que elas abaixaram o tom.


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Cachorros também falam muito em suas línguas próprias. Eu entendo que uma pessoa pode precisar transportar  um cachorro numa viagem de ônibus devido, por exemplo, a uma mudança de cidade. Mas eu espero que esse Jesus misericordioso das crentes da outra viagem me faça acreditar nisso e não pensar que uma pessoa possa levar um cachorro numa viagem noturna de ônibus de oito horas de duração para passear com ele na casa de mamã. 


Seja lá o motivo da viagem, se eu fosse dono do cachorro, daria sedativos, pensando nas pessoas e no próprio animal, estressado com a mudança de ambiente e por estar trancado numa gaiola ínfima, mesmo que seja forrada de matelassê dourado e couro de bode albino e mocho da Carmen Steffens. 


O ônibus tava todo escuro e eu nem enxergava o doguinho e nem sabia quem era o seu cruel tutor. Só sabia dizer que era um latido estridente, quase mais irritante que o invencível grunhido da netinha do agro. Era latido daqueles cachorros peludinhos daquelas mulheres que levam cachorros peludinhos em restaurantes e shoppings.


E o doguin latia, latia, latia. Mais do que a vovó do agro, mais do que as cacarejadeiras de jeová. E trinta e cinco mil latidos depois e meia noite e lá vai fumaça, meu eu selvagem despertou em fúria e gritou: 


  • Porra, faz esse cachorro calar a boca, cacete! É mais de meia-noite!


E a Barbie Sem Noção respondeu furiosa e espumante:


  • Ele não tem culpa! E eu tenho direito de estar aqui! E cala a boca você que eu não vou deitar pra macho escroto!


ADENDO: Uma amiga preta me ensinou que as patricinhas-sinhás (olha que coisa linda de trocadilho que acabei de encontrar nessa palavra “patri” de patriarcado e sinhás, que não carece de explicação, ou seja, as sinhás do patriarcado!), continuando… que as sinhás, quando são confrontadas por homens, mesmo que não tenham nenhuma razão, sempre recorrerão à opressão do patriarcado para rejeitarem qualquer tipo de discussão em que elas não tenham razão.


  • Moça, eu não tinha como saber quem é o dono desse cachorro pra praticar violência de gênero. O que acontece é que são quase uma da manhã e as pessoas precisam descansar porque é uma viagem noturna. Então faz esse cachorro calar porque senão eu vou lá falar com o motorista e a senhora vai ter que saltar desse ônibus. 


Só sei que uma mágica aconteceu e nem ela e nem o cachorro deram mais um pio. E todos dormiram confortavelmente todo o resto da viagem. Ninguém me aplaudiu e nem apoiou na hora, mas o silêncio reinou.


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Eu me auto-diagnostiquei como portador de transtorno de déficit de atenção há vários anos. Eu também me auto-medico com sucesso, mas o transtorno é uma besta-fera que, mesmo enjaulada, baba, cospe fogo e roça a língua pontuda nas orelha. É como eu disse uma vez para um paciente: “tomar medicação pro TDAH não te fará um lorde inglês”. 


Tem um amigo psicólogo que, em nossas conversas, cismou que eu tenho várias características de autismo. Eu R-E-F-U-T-E-I. Sim, eu tenho três sintomas, apenas três, mas isso não me torna autista. 


O primeiro deles é a rigidez, que adoro chamar de TEIMOSIA. Eu não nasci assim, mas sou possuidor de uma teimosia crônica que é resultado de um longo aprendizado em estabelecer meus limites. Eu realmente detesto abrir mão das minhas opiniões. Sou réu confesso.


O segundo deles é a aversão ao toque. Mas não é qualquer toque. Eu adoro carinho, beijo, abraço, tocar e ser tocado por pessoas que eu considero. Mas… eu detesto essas pessoas que falam pegando na gente o tempo todo, que seguram a gente enquanto falam e que puxam a gente sem permissão pra falar mais perto. 


O terceiro e último é fonofobia. Ao mesmo tempo que eu adoro produzir barulho, batucar, chacoalhar, transformar qualquer objeto em instrumento de percussão, eu não gosto de ambientes barulhentos, falação ao meu lado, conversas paralelas e eu explico: essas coisas me distraem e eu preciso fazer um enorme esforço para manter o meu foco numa atividade central. 


Pensem o que quiserem, meu transtorno, minhas regras. Desses três, eu desabafei com vocês o tema BARULHO, na forma de falação e grito.


Mas eu sigo, sempre “de mãos dadas com os perigos”, como diria Sophia de Mello. Essas coisas me atrapalham, mas não me incapacitam; consigo conviver fugindo delas, mas viveria muito melhor sem elas. E eu então eu me lembro que o mundo é esse negócio complicado de administrar, cheio de desafios, divergências e incoerências.