Oh, Deus, por que falam tanto? - Sobre o barulho.
Por Marcelo Niel, o Doutor Fofinho.
Eu adoro conversar. Com meus amigos. Com as pessoas que conheço. Com as pessoas que gosto. Adoro trocar ideias; e aprendi, ao longo dos anos, a deixar de me calar, a expressar meus pontos de vista e a debater e discutir questões importantes. Acabou que hoje eu escrevo menos e falo mais.
Mas tem gente que deveria escrever mais. Muito mais.
Hoje eu me inspirei em escrever diante de uma pessoa que falava demais dentro do avião, no assento ao meu lado. Cheguei e lá estava ela, com um fio de telefone enorme, falando muito alto sobre um imóvel que ela desejava comprar. Em cinco minutos, enquanto tentava removê-la do caminho para ocupar o meu lugar ao seu lado, decodifiquei toda a sua vida. E ela falava, falava, falava tanto que senti fadiga. E, além de falar barulhento, falou comigo. Daquele tipo de pessoa oitocentos por cento simpática e comunicativa que puxa assunto com você e não respeita o silêncio da manhã.
Ela deve ser do agro.
Apertados, ela, eu no meio e um gigantão, prensados feito sardinhas esbaforidas no vôo da latam (latam, latão, lata, agora entendi) e ela falava. Mas Deus misericordioso e justo vagou um lugar ao lado de sua família agropop, infelizmente apenas duas fileiras à frente, muito, muito perto.
E ela continuou falando.
Por alguns instantes eu desfaleci, com a mente já exausta do estupor da manhã, porque fui dormir às três para acordar às oito. E eu acordei com o barulho dela. E ela se comunicava, contava histórias, interagia com outros passageiros, indicou músicas, falou do top trend do spotify e, sendo um hit sertanejo, confirmei: definitivamente ela é do agro.
Eu já imaginei que ela descerá em Brasília e pegará uma conexão para Goiânia e de lá os capangas da família os levarão de Hylux branca para Conceição do Rio Amarelo, ou algo parecido, nos confins do centro-oeste.
Breve pausa para um silêncio enquanto ela cochila. Breve. Apenas breve.
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Teve uma vez que peguei um avião de Orlando para São Paulo e me sentei naquelas fileiras com cinco ou seis assentos juntos, no meio. De um lado e do outro, famílias do interior de São Paulo voltavam animadas, conversando entre si sobre as aventuras vividas na Disney. E assim eu pude conhecer todos os brinquedos, até mesmo os que eu não quis ir. E o vovô? Ah, o Vovô era extremamente simpático, do tipo que cutuca e aperta a gente quando fala sem nem conhecer.
Eu, prensado entre duas famílias agro-friendly da nata paulista ouvindo sobre todas as montanhas-russas de todos os parques da disneyuôrdy.
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Pausa para ouvir a pessoa agro-pop do meu primeiro mini-relato entoando uma canção de ninar para a neta já ninada ao meu lado. Ela nina a neta ninada e desnina a gente ao redor.
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E voltemos para o Vovô do cinturão monocultor do noroeste paulista. Poxa vida, ele não me dava paz. Toda hora me cutucando, puxando algum assunto. Com ele eu revisitei toda a porção off-park de Orlando: as comidas, o restaurante de quilo de comida brasileira, os altilétis com os 48 bonés de cores variadas que ele comprou para presentear os 36 sobrinhos e os 12 capatazes da fazenda do seu genro.
Jantamos e ele comentava sobre as diferentes comidas do avião, perguntava se a comida estava boa, se o refrigerante estava gelado e se era verdade que a gente peida mais no avião. A cada nova cutucada, eu respondia uma monofrase, esperando que ele entendesse minha escassez como uma indisponibilidade. Mas nada detinha o vovô. E a cada nova história dele, mais íntimo ele se sentia. E passou a começar as frases com “Olha, meu filho…”
E então eu comecei a minha montação hypno-drag: earplugs, tapa-olhos, protetor de pescoço e cobertorzinho-de-avião, Frontal®️ e Miosan®️. Mas nada detinha o vovô. Ele continuava me cutucando e falando coisas que eu já não ouvia mais e eu ainda respondia com um sinal de joia, o que hoje compreendo como um erro grave de prorrogação de diálogo. Minha terapeuta da época me diria que era meu lado destrutivo que alimentava essa conversa, mas eu não levei esse assunto pra análise.
Em algum momento eu me virei, de bunda mesmo, contra o vovô. E mesmo assim ele ainda me cutucou algumas vezes, mas em algum momento ou ele parou ou eu não senti mais nada. La Belle Indifference das Belas Adormecidas por hipnóticos.
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E essa falação toda me fez lembrar dos motoristas de aplicativos e táxis que precisam conversar o tempo todo do trajeto. E também dos dentistas que puxam assuntos complexos enquanto nossa boca está aberta, preenchida com algodões que não podemos molhar, gazes que não podemos contaminar e afastadores que não conseguimos retirar.
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Voltamos para a família agropop do primeiro avião.
Agora é o vovô, com a voz ardida de Kenny Rocha ensinando a neta falar “vovô cagô, vovô cagão”, “o boi cagô no mato”, “o boi cagão cagou cocô no mato, sô”. Daí eu vejo como a gente impulsiona as mutações genéticas a partir de comportamentos disfuncionais que vão atravessando as gerações. O agro é pop e é hereditário e você herdará tanta chatice quanto hectares e cabeças de bois cagões possuir.
E a criança despencou a gritar. Quando mais gritava, mais o avô ria e a estimulava, cantando a música do cocô. Gritos estridentes e irritantes, deu pra compreender de que jeito vovô e vovó vão criando seres abjetos propensos ao grito.
Olhei feio algumas vezes para o vovô, fiz careta de demônio desencontrado várias vezes para a capeta e nada surtiu efeito. A minha salvação foi pedir guardanapos para a comissária e entupir meus ouvidos até não ouvir mais os estalidos daquela demoníaca criatura. Fiquei tão surdo que até me desorientei ao sair no avião. Não ouvi os anúncios, não sabia pra onde ir, esqueci onde coloquei a bagagem. O silêncio é uma droga que deve ser consumida com moderação.
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Crianças têm impulsos e possuem seus momentos, compreendo. Mas comportamentos tenebrosos como esses devem ser corrigidos por papais e vovôs. Mas o que fazer quando papais e vovôs consideram esses comportamentos normais e ainda estimulam?
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Certa vez, no ônibus de Eunápolis a Salvador, na cabine do leito-cama, duas senhoras de birote evangélico conversavam. Desde antes do ônibus partir elas conversavam ininterruptamente sobre as maravilhas maravilhosas de Deus em suas vidas. Oh, Glória.
Eu havia suposto a religião das senhoras pelo birote e, de fato, o parlatório confirmou e glorificou a presença das abençoadas.
E então um senhor à minha frente fez por ele e por mim:
- Caras senhoras, eu comprei essa passagem cara no leito-cama noturno justamente para poder dormir. Então é melhor a gente trocar de lugar e vocês se sentam juntas para poder conversar, mas já lhes peço para conversarem baixo porque senão vamos ter problema.
Ele, firme e educado na mesma medida, resolveu o problema por quase toda a viagem. Mas às cinco da manhã elas voltaram a cacarejar sobre as obras de Jesus e daí foi minha vez de fazer o martelo de Xangô cortar o mal pela raiz:
- Senhoras, por gentileza, são cinco da manhã e ainda temos quase três horas de viagem; por favor respeitem os passageiros.
Sei dizer que elas abaixaram o tom.
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Cachorros também falam muito em suas línguas próprias. Eu entendo que uma pessoa pode precisar transportar um cachorro numa viagem de ônibus devido, por exemplo, a uma mudança de cidade. Mas eu espero que esse Jesus misericordioso das crentes da outra viagem me faça acreditar nisso e não pensar que uma pessoa possa levar um cachorro numa viagem noturna de ônibus de oito horas de duração para passear com ele na casa de mamã.
Seja lá o motivo da viagem, se eu fosse dono do cachorro, daria sedativos, pensando nas pessoas e no próprio animal, estressado com a mudança de ambiente e por estar trancado numa gaiola ínfima, mesmo que seja forrada de matelassê dourado e couro de bode albino e mocho da Carmen Steffens.
O ônibus tava todo escuro e eu nem enxergava o doguinho e nem sabia quem era o seu cruel tutor. Só sabia dizer que era um latido estridente, quase mais irritante que o invencível grunhido da netinha do agro. Era latido daqueles cachorros peludinhos daquelas mulheres que levam cachorros peludinhos em restaurantes e shoppings.
E o doguin latia, latia, latia. Mais do que a vovó do agro, mais do que as cacarejadeiras de jeová. E trinta e cinco mil latidos depois e meia noite e lá vai fumaça, meu eu selvagem despertou em fúria e gritou:
- Porra, faz esse cachorro calar a boca, cacete! É mais de meia-noite!
E a Barbie Sem Noção respondeu furiosa e espumante:
- Ele não tem culpa! E eu tenho direito de estar aqui! E cala a boca você que eu não vou deitar pra macho escroto!
ADENDO: Uma amiga preta me ensinou que as patricinhas-sinhás (olha que coisa linda de trocadilho que acabei de encontrar nessa palavra “patri” de patriarcado e sinhás, que não carece de explicação, ou seja, as sinhás do patriarcado!), continuando… que as sinhás, quando são confrontadas por homens, mesmo que não tenham nenhuma razão, sempre recorrerão à opressão do patriarcado para rejeitarem qualquer tipo de discussão em que elas não tenham razão.
- Moça, eu não tinha como saber quem é o dono desse cachorro pra praticar violência de gênero. O que acontece é que são quase uma da manhã e as pessoas precisam descansar porque é uma viagem noturna. Então faz esse cachorro calar porque senão eu vou lá falar com o motorista e a senhora vai ter que saltar desse ônibus.
Só sei que uma mágica aconteceu e nem ela e nem o cachorro deram mais um pio. E todos dormiram confortavelmente todo o resto da viagem. Ninguém me aplaudiu e nem apoiou na hora, mas o silêncio reinou.
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Eu me auto-diagnostiquei como portador de transtorno de déficit de atenção há vários anos. Eu também me auto-medico com sucesso, mas o transtorno é uma besta-fera que, mesmo enjaulada, baba, cospe fogo e roça a língua pontuda nas orelha. É como eu disse uma vez para um paciente: “tomar medicação pro TDAH não te fará um lorde inglês”.
Tem um amigo psicólogo que, em nossas conversas, cismou que eu tenho várias características de autismo. Eu R-E-F-U-T-E-I. Sim, eu tenho três sintomas, apenas três, mas isso não me torna autista.
O primeiro deles é a rigidez, que adoro chamar de TEIMOSIA. Eu não nasci assim, mas sou possuidor de uma teimosia crônica que é resultado de um longo aprendizado em estabelecer meus limites. Eu realmente detesto abrir mão das minhas opiniões. Sou réu confesso.
O segundo deles é a aversão ao toque. Mas não é qualquer toque. Eu adoro carinho, beijo, abraço, tocar e ser tocado por pessoas que eu considero. Mas… eu detesto essas pessoas que falam pegando na gente o tempo todo, que seguram a gente enquanto falam e que puxam a gente sem permissão pra falar mais perto.
O terceiro e último é fonofobia. Ao mesmo tempo que eu adoro produzir barulho, batucar, chacoalhar, transformar qualquer objeto em instrumento de percussão, eu não gosto de ambientes barulhentos, falação ao meu lado, conversas paralelas e eu explico: essas coisas me distraem e eu preciso fazer um enorme esforço para manter o meu foco numa atividade central.
Pensem o que quiserem, meu transtorno, minhas regras. Desses três, eu desabafei com vocês o tema BARULHO, na forma de falação e grito.
Mas eu sigo, sempre “de mãos dadas com os perigos”, como diria Sophia de Mello. Essas coisas me atrapalham, mas não me incapacitam; consigo conviver fugindo delas, mas viveria muito melhor sem elas. E eu então eu me lembro que o mundo é esse negócio complicado de administrar, cheio de desafios, divergências e incoerências.
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