SOBRE GHOSTING
“Eu não sei quem sou. Sem me sentir banida, experimento degredo”
(Adélia Prado, “A face de Deus é vespas”)
Sobre Ghosting
Por Marcelo Niel
Eu não vou usar definições da literatura pra falar sobre isso. Eu vou falar com o coração.
Eu sempre fui muito apaixonado. Eu construí as minhas expectativas sobre o amor e a realização afetiva baseada na perspectiva do amor romântico, monogâmico.
Mesmo que eu estivesse dentro de um relacionamento - sexualmente - aberto e mesmo que os encontros decorrentes desse acordo pudessem suscitar algumas “derrapadas” afetivas de envolvimento sentimental, a minha perspectiva do “relacionamento principal” era totalmente monogâmica.
Nesse relacionamento eu experimentei toda a calhordice que uma pessoa pode ter e ser em seu mais puro estado de perversidade. Ele ganhou em nível de psicopatia e narcisismo do meu - in memorian - genitor. Depois eu vivi pra ouvir nas minhas últimas sessões de análise que eu encontrei nesse cara com quem me relacionei a cornucópia da psicopatia do meu genitor.
Não, pessoas, não foi o analista quem falou. Eu vivi pra ouvir isso saindo de dentro da minha própria boca. Gag de la gag.
Apesar de tudo de pior que eu passei, uma coisa eu devo admitir: nesse relacionamento eu aprendi que open relationship é algo muito diferente de não monogamia. E eu tenho que confessar que eu não soube segurar a onda de não ter controle sobre o desejo do outro.
A pomba-gira de um amigo me falou um dia: “ Eu vou te falar uma coisa que você vai entender porque você é inteligente: a areia pra gente segurar com a mão, tem que apertar muito”
E eu senti raiva dela. Eu entendi o recado, e senti raiva dela. Debochei. Cheguei a me sentir castigado. Mas ela estava certa. Eu queria possuir a impossível areia.
E por que diacho estou falando desse cara?
Porque eu preciso lembrar que passei pelas piores situações exceto uma: ghosting. Pelo contrário, o psicopata era uma sombra.
Mas ghosting não é bom não.
Me imaginei agora no grupo de auto-ajuda dos Assombrados Anônimos:
“Eu sou Marcelo, tenho 52 anos e tomei recentemente o meu primeiro ghosting”
Cinquenta e dois anos.
Não tem vergonha?
Tenho um pouquinho.
Mas a vida é assim mesmo.
Ghosting, vem de ghost, fantasma em inglês. Ninguém achou uma palavra boa na última flor do láscio, então ficou ghosting mesmo. Mas é um tipo de desaparecimento. É quando a pessoa desaparece, toma chá de sumiço sem nem ao menos dar uma satisfação ou uma explicação. Ela simplesmente finaliza unilateralmente uma relação. Isso pode acontecer em diversos tipos de relações, mas é bastante comum em relacionamentos afetivos, e parece que homens dão mais gosthings que mulheres, de acordo com minhas breves pesquisas.
“Eu sou Marcelo, tenho 52 anos e tomei recentemente o meu primeiro ghosting”
Lembra que eu comecei falando que eu edifiquei meu predinho afetivo baseado em relações monogâmicas e que sempre gostei desse frisson de me apaixonar?
Pois bem. Depois de 3 casamentos e 2 namoros sérios que quase viraram casamentos, de algum modo algo em mim parecia ter mudado e eu achei que essa onda tinha acabado. Eu até passei a dizer que me entendia hoje como não-monogâmico (chique, né?) e parecia que não estava disposto a me relacionar novamente. E ainda bradava: acho que encerrei a fábrica, mas se eu tiver um novo relacionamento, vai ser aberto e não-monogâmico. (Durma-se com um barulho desses que eu agora aprendi que é preciso binomear essa bagaça)
E então ele chegou.
Estava recém chegado de uma viagem a Salvador e esse cara me chamou no app. Disse que tinha visto meu perfil, mas depois percebeu que eu estava longe. E desse papo engatamos um papo incrível que virou paixão. Encurtando a história, nos encontramos pessoalmente após alguns dias e eu fiquei tão apaixonado que já queria casar. Nos despedimos trocando intensos afetos e continuamos a conversa por alguns dias e…pluft! Desapareceu.
Esperei um dia
Esperei 2 dias
Esperei 3 dias
De repente me bateu uma culpa enorme. E se tiver acontecido algo com ele? Olhei os stories e lá estava, vivo, postando uma poesia melancólica. Ufa, pelo menos estava vivo.
Passei dias, pensando, pirando, revendo mensagens, analisando gestos, pensando em algo que eu pudesse ter feito de errado para explicar o sumiço. SUMIÇO. Taí a palavra para traduzir ghosting.
I love u Brazil!
Alguns dias mais e eu não me aguentei. Fiz um texto lindo, denso e complexo como minha alma, meio batendo em retirada.
E ele apareceu. Pediu desculpas, alegou problemas pessoais.
“Tem certeza que você não é casado e estava naqueles períodos de entressafra, casa-separa? Eu estou preparado para ouvir qualquer coisa, desde que seja verdadeira”
“Quero ficar com você”
E seguimos mais uns dias de conversa. Amenas, gostosas, apaixonadas. Planejando o próximo encontro. Cheguei a me sentir culpado. Cheguei a pensar que ele possuísse alguma neurodivergência e que tinha entrado em shutdown.
E de repente, some de novo.
Curioso, não sei se é sempre assim, mas com ele foi: o sumiço se deu após uma frase corriqueira. Tipo: “Bom dia, dormiu bem? Está melhor da sua dor no pescoço?”
Eu nunca soube a resposta.
Mas eu também entendi.
“Eu sou Marcelo, tenho 52 anos e tomei recentemente o meu primeiro ghosting”
Hoje se completam 47 dias que eu fiquei sem saber se a dor no pescoço havia melhorado. Eu não sou de fazer essas contas, mas eu me lembrei que nosso último papo havia sido na páscoa.
Eu sofri bastante nos primeiros dias, chorei com músicas tristes e com desenhos animados fofos. Mas apesar de gostar de perigo, tem um senso de inteireza que bate em mim e levanta a minha cabeça. Como naqueles filmes em que o herói pega aquele ultimo suspiro e se levanta para enfrentar o inimigo. Igual em Kill Bill, quando a Kiddo soca aquele caixão até conseguir se libertar e sair do buraco.
E por falar em último suspiro, a partir de amanhã começo a fazer aquela maluquice do vácuo abdominal. Sigam-me para mais dicas.
“Eu sou Marcelo, tenho 52 anos e tomei recentemente o meu primeiro ghosting”
Gente, ghosting ou chá de sumiço não é legal não. Não que eu desacreditasse, mas eu realmente não conseguia captar a dimensão e as consequências para o nosso psicológico. Mas agora eu sei.
E hoje compreendo muito mais aquelas mães cujos filhos foram assassinados e que passam anos esperando para localizar o corpo. Sim, eu já ouvi isso. “Eu sei que ele não está vivo. Mas eu quero ver o corpo dele para tirar essa agonia de dentro de mim.”
E o que leva alguém a fazer ghosting?
Não sei. Não me interessa. Só digo: não faça.
Explique, mesmo que seja mentira.
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