Blog do Doutor Fofinho

"Tudo começou há algum tempo atrás na Ilha do Sol..." Há muitos anos eu montei esse blog, dando o nome "Le Cul du Tabou", inspirado por uma amiga, para falar sobre o tabu das coisas. Ganhei muitos seguidores, mas desde 2018 não escrevi mais nele. Estou retomando, agora com novo nome, o "Blog do Doutor Fofinho", muito mais a minha cara, minha identidade. Sejam bem vindos.

Wednesday, October 31, 2012

SOBRE SANDY, A ARENOSA FURACA.


Como não costumo assistir noticiários de TV e com viagem marcada para os Estados Unidos, não dei nem "tchuns" para a chegada da tal Sandy. É lógico que, ao tomar ciência da sua chegada, confesso que fiquei apreensivo pela potencial hecatombe. Cheguei a rezar pela minha segurança e pelas pessoas que pudessem vir a sofrer com a pretensa catástrofe. 


Cheguei aqui no sábado; dia normal em Manhattan. Fui a um congresso, saí para jantar fora. Mas no domingo, um mal estar começou a se instalar pela ilha. No supermercado, pessoas desesperadas, fazendo estoques de pão, água e Elma Chips. Nunca vi prateleiras vazias nos supermercados americanos; essa foi a primeira vez. Os noticiários profetizavam o terror, a catástrofe, a balbúrdia, alastrando medo e pavor entre as pessoas. Embora existisse a ameaça de uma catástrofe, já dava para sentir um tom de exagero nos noticiários. Desgraça vende audiência. E aumenta as vendas de pão, água, Elma Chips, lanternas, velas e tapumes. 



Sandy resolveu chegar no dia do meu aniversário. Ferrou minha ida ao teatro, meu jantar num restaurante chique, minhas compras. Mas fiquei feliz ao encontrar pato fresco e poder preparar um delicioso confit, chez moi. Ao sair de casa para as compras, senti um medinho aliado à sensação de participar de um daqueles filmes "final dos tempos", tipo "Guerra dos Mundos" ou "O dia D". Uma ventania louca à beira do parque, um céu nublado, um medo estampado na cara das pessoas e um corre-corre de pessoas abarrotadas de sacolas. Pão, água, Elma Chips e batatas. Coisa curiosa ocorreu: os frutos do mar se esgotaram nos supermercados. O que seria isso? Fiquei pensando que seria um tipo de Santa Ceia revisitada, a última ceia antes da Sandy. Eu também fiz isso, de certo modo. Confit de Pato na Slow Cook e Aligot de Inhame com manteiga trufada. Se é pra morrer jovem, que seja com jantar chique à mesa e um bom vinho francês. 

No Brasil, graças ao noticiário fantasmagórico das massas e ao Facebook com fotos de uma fantasiosa destruição, pessoas queridas foram ficando preocupadas. Em meio aos votos de feliz aniversário, preces, pedidos de notícias e apreensivos contatos. Tratei de publicar uma "nota de alívio" e escrever para os muito mais chegados palavras tranquilizadoras. Também disse o quanto amava, porque "vai que", não é mesmo?

Fui dormir vendo as árvores chacoalhando bruscamente. Aqui, nesse pedaço longínquo de Manhattan, não faltou luz, dormimos com as janelas abertas, não acordamos soterrados ou alagados. E o melhor de tudo, acordamos. Abraçados. É claro que, se tivesse morrido, seria uma daquelas românticas histórias de fim de filmes: os namorados encontrados mortos, abraçados. Poesia mórbida da declaração de amor póstuma. Ou, num outro ponto de vista,  tipo "pentecostal master", os pecadores castigados pelo Senhor dos Exércitos, encontrados no antro do pecado. Céu ou Inferno, Deus ou Diabo, São Pedro ou Lúcifer, fato é que, se tivesse morrido, teria sido como sempre desejei: morrer ao lado do meu amor e ir com ele para onde fosse. 

Mas não, não era essa a nossa hora. Eu bem que desconfiava. Porque o que se poderia esperar de um furacão chamado Sandy? Não são apenas os brasileiros que possuem essa referência insossa, da virgem imaculada e tediosa chamada Sandy. Eles têm a Sandy Leah, que aliás batizou a nossa. Sandy, Chelsea, Britney, Lindsay. Tudo igual. "Apenas um ventinho fresco", como disseram no Facebook. Como disse antes da Sandy passar, teria medo de verdade se o furacão se chamasse Laura, Liza, Barbara, Meryl, Cher ou Madonna. Ou, traduzindo para nossa realidade, Bethânia, Ivete, Daiela, verdadeiros furacões baianos. "Eu sou o vento que lança a areia do Saara sobre os automóveis de Roma". Isso sim é furacão. 

Incrível deparar com a depressão pós-furacão. Comércio fechado.  Metrô alagado. As folhas de outono bagunçadas pelas calçadas. Árvores decepadas pela força da ventania. Embora nada tenha acontecido no "aqui dentro"  do aconchego do lar, um vendaval deixou suas marcas no cotidiano dos americanos. Dizem que casas caíram, pessoas foram retiradas de seus lares para lugares secos e seguros, carros ficaram boiando pelas ruas e até os escombros do finado World Trade Center ficaram alagados. Por mais caótico que tenha sido e por mais caótico que ainda estejam as coisas, o caos "New York Style" é muito mais organizado que o caos brasileiro. 

Tudo o que aconteceu aqui é muito parecido com o que vivemos todos os anos com as nossas enchentes. Todo ano em São Paulo morrem diversas pessoas, bóiam carros, milhares de pessoas ficam sem transporte e outras tantas perdem suas casas. E nada por conta de um furacão. Não temos Katrinas, Irenes, Tsunamis. Temos políticos omissos, temos Martas, Kassabs, Serras e outros tantos que estão mais preocupados em construir viadutos e pontes estaidas do que resolver problemas estruturais tão fundamentais quanto as enhentes e as moradias em situações de risco em encostas e beiras de rios na cidade. Eleição após eleição, alguns "cartões-defecais" da cidade nunca mudam: a Avenida do Estado, as Marginais, a Radial Leste e a Avenida Aricanduva. Lugares por onde jamais passam os gringos e esses tais políticos. Mas também morre gente afogada nos túneis e viadutos da região central da cidade. 

E a arenosa e insossa Sandy partiu. Várias pessoas me perguntaram curiosas sobre essa "experiência" que de fato e, graças a Deus, não vivi: passar pelo horror de ver coisas voado, estilhaços de janelas, pedaços de casas voado. Eu nào vi a Sandy passar. Parece que os Deuses me protegem de presenciar desgraças: foi desse mesmo que sobrevivi à explosão de uma turbina do avião em 2004: dormindo placidamente e acordando após o pesadelo ter terminado. Esse meu pai Xangô que detesta a morte não apenas proteje o seu filho dela, mas venda seus olhos e o "anoitece" para não ter que encará-la precocemente. 


Tuesday, October 23, 2012

FACEBOOK E A UTOPIA DA PRIVACIDADE



(http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/cartum/cartunsdiarios/#23/10/2012)

Na hora do almoço, dei de cara com esse quadrinho da Folha de São Paulo. A princípio achei exagerado. E de fato acho que é um pouco; porque tem um monte de gente que utiliiza o Facebook como uma ferramenta para movimentar o mundo. Para o bem ou para o mal, mas movimentando. Fazendo coisas. Criando, dando idéias, inspirando. Mas é verdade que tem um monte de gente que só sabe reclamar. Ficar na “janela” da vida reclamando, criticando, sem tomar nenhuma atitude.  E uma dessas “neuras” é reclamar da privacidade ou da falta dela.

Amigos que estão preocupados com a privacidade do Facebook: saiam do Facebook. Quem não quer ser visto andando pelado pela casa, vista roupas ou feche a cortina; se não quer engravidar, use camisinha ou tome pílula; se não quer ser visto bêbado, dando vexame, não beba.

Poetas, especuladores, sábios, magos, gurus, já ouvi da boca de vários deles que a vida é coisa muito simples e somos nós que a complicamos. É claro que a gente dá um desconto para as catástrofes, as doenças graves, as perdas, as falências; porque nada disso é coisa simples e exige um puta esforço. Mas o resto, a maior parte das coisas, é bem, bem fácil.

Também já falaram que o Facebook é uma praça pública. Eu concordo que seja uma praça, uma ágora, uma marquise. Mas não é pública. Tampouco inalienável. Somos nós que frequentamos essa praça, falamos alto, falamos bobagens, cometemos deslizes e vexames; invadimos o espaço alheio, nos metemos em conversas dos outros, fuçamos nos álbuns de fotos de outrém; também fazemos coisas bonitas, encontramos pessoas, fazemos amizades, amores, paqueras, network. Mas essa praça é como a praça de uma universidade privada, de um prédio de Wall Street, do playground de um prédio chique: ela pertence a alguém que não conhecemos e que nos deixa brincar nela. Até porque nela estamos consumindo as guloseimas ofertadas por esse alguém. Alguém pode alegar “direitos do consumidor”. Consumir os produtos de um supermercado, restaurante ou farmácia não nos faz donos de tais estabelecimentos.

Como você se sentiria se alguém abrisse sua bolsa, vasculhasse suas coisas, sacasse um álbum de fotos e olhasse, sem pedir permissão? Exato, quase ninguém iria gostar. Mas o Facebook não é isso. Não é uma bolsa. As fotos estão lá, jogadas, num banco, numa pasta e, muitas vezes com uma placa pendurada dizendo “Permitido fuçar.”

Eu me incomodo com um monte de coisas no Facebook; não vou citá-las porque tem gente que gosto muito que escreve, posta ou se diverte com coisas que não fazem a minha cabeça. Agora, se algo me incomoda muito, como gente preconceituosa, mal educada, enxerida ou que simplesmente posta coisas que não estou a fim de ver, existem diversas ferramentas que dão a possibilidade de deixar de ver essas coisas. Reclamar do Facebook sem sair dele é a mesma coisa que reclamar da TV Globo e não mudar de canal ou desligar a televisão.

Essa “neura” me faz lembrar um dia em que entrei num banheiro no conforto médico da faculdade enquanto uma colega de classe estava sentada, no trono, pelada e com uma toalha enrolada na cabeça. Cena terrível. Ela ficou assustada e ofendida. Mas não trancou a porta.

É isso: tranque a porta. Mais que isso: não entre. Muito, muito mais: saia. Vá embora. Isole-se. Troque seu iphone, ou seu fuckberry, ou seu galáxico por um celular de R$ 1,99 que vende na banca de jornal, sem internet, sem foto, sem wi-fi, sem merda nenhuma. O maior ensinamento que se tira disso é o quanto o ser humano é idiotamente passivo.

Outra coisa: esses avisos idiotas sobre privacidade, mudança de status, liberação disso, exposição daquilo são, em sua maioria, como disse uma amiga, trotes. Não sei quem é o idiota que perde seu tempo criando essas baboseiras, mas precisamos (um “–amos” bem sem eu estar incluído) aprender a selecionar e pesquisar a veracidade das informações que circulam na internet. Isso também serve para as citações pseudo-célebres, os avisos de pedofilia, de sequestros e por aí vai.

Monteiro Lobato, um gênio criador que influenciou tanto a minha infância – POSITIVAMENTE – com o Sítio do Pica-Pau Amarelo disse um dia que “um pais se faz com homens e livros”. Mesmo que seja um “e-book”. Não existe outra fórmula eficaz para criar mentes pensantes a não ser lendo. Lendo livros, não citações do “Pensador UOL” ou reproduzindo reproduções das reproduções das citações no Facebook dos outros.

E por favor: saia logo do Facebook. Antes que os tarados, os pedófilos, os nazistas e o Bozo peguem você.

Thursday, October 18, 2012

CAROS DOUTORES: O FIM DA INOCÊNCIA E A FALÁCIA DE ABADIÂNIA


Hoje é dia do Médico. Apesar da inspiração ter chegado cedo ao ter deparado com homenagens, felicitações e chocolates, só consegui parar agora para escrever e postar,  justamente porque passei o "meu"  dia fazendo o que faço quase todos os dias: trabalhando, atendendo gente.

Eu tenho orgulho de ser médico. Eu me sinto feliz ao poder ajudar tanta gente a recuperar o gosto pela vida. E sinto uma frustração enorme ante a impossibilidade de realizar meus feitos "mágicos", como aquele mágico que não encontra o coelho ao enfiar a mão na cartola. 

Paradoxalmente, tenho sentido vergonha por pertencer à classe médica. E isso acontece toda vez que me  deparo com a falta de ética, com a desonestidade e o desrespeito à pessoa humana praticados por inúmeros médicos. Só nessa semana, ouvi umas três histórias de médicos que deveriam ter seus diplomas cassados. Mas isso é apenas um sonho suplantando um pesadelo. 

Eu não me lembro exatamente quando decidi ser médico. Mas eu me lembro do exato momento em que ouvi meu pai falando que se eu fizesse Medicina, conseguiria me livrar do exército que, segundo ele, era algo terrível. Filho de um pai tirano e rejeitador que nunca conseguiu entrar numa faculdade de Medicina e que não conseguiu fazer faculdade alguma, vi automaticamente - e imerso num mar de inconsciência- a possibilidade de ser amado e "orgulhado" por ele ao me tornar médico. E não adiantou nada. 

Passei toda a infância sendo louvado por escolher a Medicina e ganhando malinhas de médico de brinquedo. Às vezes era chamado de doutor até. Mas eu realmente preferia brincar de Playmobil. 

E então eu me lembro de me perguntar todos os dias, na faculdade: "O que estou fazendo aqui?". Era o fim da inocência. Uma morte que as malinhas de plástico azuis do "Pequeno Médico" não podiam salvar. A vontade de fugir associada à impossilidade de fugir me oprimiram tanto que acabei sendo arrastado pelo mar da depressão. O bom disso foi ter sido levado pela depressào à terapia e, por ela, levado à descoberta da Psiquiatria, que me trouxe ao que sou hoje: um homem feliz,por ser, entre outras coisas, um psiquiatra. Assim, tenho gratidão pela depressão, por ter sido ela, através do seu túnel sombrio, o caminho para a minha realização. 

Mesmo ajudando muita gente, tem um outro montão de pessoas que não conseguimos ajudar. A Medicina, e muito mais, a Psiquiatria, são ciências inexatas. E falhas.  E são nessas falhas, nesses buracos, é que muitas vezes entra a busca por outros tipos de caminhos em busca de curas. No vácuo da cronicidade e da intratabilidade de muitas doenças, muitas pessoas correm o mundo atrás de tratamentos alternativos, como o tal João de Deus de Abadiânia. 

Faz pouco tempo que ouvi falar de João de Deus, num curso de Antropologia. Fiquei interessado, mais por curiosidade do que por fé, em conhecer os feitos do tal médium. Confesso que já fui desconfiado. Cirurgias espirituais "invasivas" me fazem lembrar aqueles médiuns embusteiros que recebiam o famigerado "Dr. Fritz". Médiuns que enriqueceram através da boa fé das pessoas e que foram "levados" por acidentes fatais em seus carros de luxo ou por assassinatos. Mas resolvi dar um voto de confiança, já que até a Oprah esteve lá. 

Infelizmente, João de Deus cumpre a "tradição" dos outros médiuns operadores do passado: a pilantragem. Eu não o conheci, mas a falácia se denuncia ao deparar com os produtos à venda na livraria, como os cristais caríssimos e a água "fluida", tudo já abençoado previamente pelos espíritos, segundo as plaquinhas, ou a passiflora que é vendida para todos os que passam pelo templo. Todo mundo tem que tomar passiflora e pagar 50 reais por ela. Como me perguntou um amigo, "Você paga 50 reais por comprimidos de maracujá?". E não é só isso: quem passa por lá tem que voltar em 8 a 48 dias para uma "revisão" e tomar mais maracujá. Fiquei calculando quanto se arrecada por dia: levando em conta apenas a passiflora, a média de mil pessoas que visita o templo deixa lá, no mínimo, cinquenta mil reais. 

João de Deus não fez um juramento hipocrático.  Mas é muito mais respeitado do que muitos médicos que conheço. Eu tenho pena das pessoas que vão até lá em busca da cura para seus males, os males de seus filhos ou de outros entes amados. Mesmo que ele não seja de Deus, acredito que possam haver algumas curas, não por suas açōes, nem pelos cristais, nem pela passiflora e muito menos pelas tais águas fluidas acondicionadas em garrafas plásticas que nunca foram abertas. Entretanto, não acredito que as curas vieram pelas mãos do João; elas vieram pela própria fé dos doentes, ou pelo desejo de obter a cura. A peregrinação, a caminhada, a Via Crucis, a jornada. Talvez seja o caminho, a busca, a procura, muito mais que o encontro, os elementos para a realização da cura. 

Vale lembrar que eu não fui atrás do João de Deus com o intuito de difamar ou contrapor com uma pretensa supremacia da minha religião. Até porque, infelizmente, as religiões afro-brasileiras são repletas de gente pilantra, embusteiros e de má fé. Eu respeito todas as religiões. Meu desrespeito se inaugura quando a religião vira banco, empresa, indústria. 

Dessa jornada, o que mais gostei foi o percurso. Foi poder conversar com um grande amigo pelo caminho; foi poder dar boas risadas com ele ao ouvir um monte de coisa estapafúrdia falada pelos preletores do templo e poder decidir que não ia seguir o pós-operatório, que incluía, além da passiflora, abstinência alcóoolica e sexual, proibição de comer ovo de galinha caipira e a estranha e recente liberação de carne de porco que, segundo eles, é um animal sagrado. Eu também gostei do nome da cidade: Abadiânia. Tem charme bucólico nele. No nome, não na cidade, que é de uma pobreza só.

Minha "cura" foi encontrada num despretensioso passeio a Goiânia para visitar uns amigos; nas boas risadas regadas a cerveja, piscina e comidas locais, como a "panelinha", o pequi, e o empadão goiano. 

Wednesday, October 10, 2012

QUEM MANDOU FALAREM ALTO AS VOZES DO CORAÇÃO?





Detesto partir nas voltas. Detesto ter que deixar alguém sem mim, para trás, mesmo que por curtos momentos. Também detesto as partidas de outrém. Só amo as partidas e as chegadas rumo aos encontros. Porque os desencontros partem demais meu coração. O dia da partida é um dia tenso: mal humor, irritação; parece que o mundo vai acabar. Infelizmente (e digo isso só nessa hora) ele não acaba naquele exato momento. Nenhuma das estratégias de enfrentamento habituais acalmam minha angústia dessa vez: leitura, jogos eletrônicos, escrever, comprar. Só me acalentam as mensagens trocadas com juras de amor e votos de saudades, mas ainda assim não foi suficiente. E num "zap" pela sala de embarque, paro para escutar um pouco das conversas das outras pessoas, um fenômeno da física que fazia ecoar as vozes das pessoas sentadas nos cantos. Dava para ouvir tudo, em claro e bom tom. E esse zum-zum-zum de conversas não-minhas foi capaz de deslocar meu descontentamento momentaneamente.

O primeiro foi um cara bem chato. Daqueles chatos que a gente percebe o quanto são chatos só pelo modo de vestir. Embarcando num avião de "classe pau-de-arara"(leia-se: econômica), lá estava ele, todo engomadinho, de camisa azul-calcinha, mangas abotoadas, colarinho impecável, blusa de gola V de Mauricinho típico. Deve ter estudado no Dante. Enquanto sua mulher fazia compras no Duty Free - talvez fugindo dele - ele falava mal dela para uma desconhecida senhora que fazia cara de paisagem. "Minha mulher fica sempre do lado da família dela, ela não apoia meus pontos de vista", disse ele. Imaginei-me no lugar da velhinha, dizendo: "Se eu fosse ela, também não apoiaria. Onde você pegou o seu diploma de chatice?". Antes que minha irritação aumentasse, tratei de mudar o foco.

Ao meu lado, uma moça-menina, falando ao telefone. E ela diz para sua mãe: "Estou precisando tanto de você. Quantas saudades, nem acredito que vou te beijar", sentada na sala de embarque do Kennedy, esperando o Delta 121. Mala vermelha apoiando seus skinny jeans e uma sapatilha Crocs cor-de-rosa. Travesseiro de plushing em torno do pescoço. O cabelo duro esticando a touca, com seus grampos pretos destacando-se dos macarrões duros, a cara furada das acnes. Estrelinhas tatuadas no pescoço, daquelas que as pessoas cafonas têm. "Mãe, eu acho que vou fazer um suco para levar lá para o "Ciará". Tô querendo levar um aparelho de pressão para o Ciará, para tirar a pressão das pessoas. Queria também levar um aparelho de glicose, mas a grana tá curta. A senhora acha que eu tiro a touca no avião ou quando eu chegar? Ah, tá. A senhora quer me ver bonita, né? Um beijo, mãe, eu te amo."

Como diria Madonna, "Who's that girl?" Quem é essa garota com o cabelo duro esticado, blusa de lã azulona e sapatos rosa. Voz de princesa. Jeito de borralheira. Ela fala de um pastor. “O pastor já chegou lá no Ciará; eles vão vacinar as crianças”. Ela tem uma cafonice, mas tem um charme. Suas acnes contam trinta e tantos, mas ela diz que tem apenas vinte e oito. Coisa esquisita isso das acnes que enganam a idade. Liga pra outra pessoa, deve ser a sobrinha. Diz que ama todo mundo. Uma excelente personagem para o "Chegadas e Partidas" das Astrid. Chama a sobrinha de "fia", diz que quer dormir com o pai; que vai fazer uma música com ela. Chama a irmã de "piriquito". "Meu cabelo tá lindo, eu tô de touca, tá liso. Jéssica, deixa seu cabelo crescer, porque seu vô é pastor da Assembléia e sua tia é missionária! Eu tô deixando o cabelo crescer, sem nada nele. Tipo “curly”. Eu conheci o Thales Roberto aqui em Nova Iorque, mas não fui no show porque estava sem dinheiro. Sabe quem é? É aquele que canta "Pai, estou voltando pra casa, lá-lá-lá-lá….".

Engraçado uma pessoa vestindo calças jeans, pulseiras, brincos, tatuagem de estrelinha no pescoço ser missionária da Assembléia. Convertida, de certo. Na senda dos neopentecostais, cabe qualquer coisa. Mas, como disse meu amigo, esse é um troféu de milhões para uma igreja dessas. Ex-pecadores agora convertidos, longe das influências de Satanás (bom sexo, bom vinho, boa comida e roupas legais). E ela quer comprar um pandeiro! Pandeiro não é música profana? Tudo que é profano vira divino com o toque de Jesus. Oh, Jesus Lord, feel my pain and my faith. E então ela conta que a Josélia, uma outra irmã, comprou uma camisa da "Liz Carboni". "Uma blusa simples, dessas de usar em casa, mas a "Liz Carboni" é uma marca super chique e duas bolsas de Jerusalém toda de missangas, tudo escrito em "jerusalém" nela. Eu queria pra mim, mas a Josélia sentiu que Deus falou pra dar a blusa pra tia Clemilda. E as bolsas é uma pra mim e outra pra senhora, mãe". A mãe diz que não vai dar a bolsa pra tia. Ela diz: "Coisa feia, mãe, isso não é coisa de crente!".

E daí ela volta a falar com a Jéssica. Quer ir rezar no Monte. Um Monte lá na Zona Norte, tipo no cu do Judas, onde as pessoas vão rezar. Lá, os flanelinhas-de-Deus chamam todos de irmãos. Lá, no Monte, que não é das Oliveiras, os crentes que não podem ir a Jerusalém se voltam para Deus, comendo hot-dog de Jesus. Deve ser uma grande experiência divina.

"Não conta pra ninguém que eu tô levando um anel lindo para dar pra ela. Tá dentro da caixinha!" O anel é para a Jéssica ou para a mãe dela? Não consegui entender. Quase perguntei pra ela.

E então ela parte para comprar mais chocolates. E, ao passo que ela se cala, aumenta-se o volume do cara chato. Ele também fala de mitologia, algo sobre o Prometeu, mas eu não pesquei. Acho que ele falava do filme que estava passando no avião. E, na melhor maneira de se conversar com os chatos, a velhinha assentia com a cabeça.

Um casal de espanhóis abafa a fala do chato com sua língua inconfundível. "Quieres? Lo que quieres? Lo que deseas? Nada. Nadie." Aquela língua meio presa dos espanhóis sempre me faz lembrar o Victor Valentim, da novela "Ti-ti-ti". Lembro sempre dele seduzindo as mulheres todas na novela. Acho que falar espanhol "espanhólico" fica muito mais charmoso ao falar de sexo, erotismo, conquistas. Não deveria ser usado para falar de problemas e coisas do cotidiano. Para isso deveria ser usado o catalão.
E tudo isso me fez ficar risonho. Fez com que eu me esquecesse um pouco de como são tristes essas partidas. É como ter que ir embora de um maravilhoso restaurante ou ver o final de uma festa. Ou, como já vivi por tantas vezes na infância, ter que deixar a festa antes de comer o bolo e de ganhar as supresinhas. E mesmo nas pequenas incongruências que compunham a existência daquela moça ao telefone, pude notar o quanto era importante e forte a energia de amor que circulava naquele momento em que ela falava com as pessoas de sua família. Saudade, a palavra que os brasileiros tanto se orgulham de ser tão única na língua portuguesa, como disse uma vez a escritora Adélia Prado, é a ponte que faz circular o amor entre as pessoas. Sentir saudades é manter um fluxo de amor; é um jeito de manter o amor vivo. Só sentimos saudades daquilo que amamos; se não sentimos, não amamos mais; se não amamos mais, não sentimos.

Thursday, October 04, 2012

BRASILIANAS AMBIVALÊNCIAS


"Brasil, mostra a tua cara, quero ver quem paga pra gente ficar assim" 
("Brasil", Cazuza)

Tem um lado meu, provavelmente o esquerdo, o lado do coração, que sente um grande orgulho em ser brasileiro. A música maravilhosa, a riqueza das cores, a exuberante natureza, a comida variada e espetacular. Amo o brasileiro - com algumas poucas exceções -mas amo de fato. Amo os sotaques, as cores, a malemolência, o gingado, o bom humor, a hospitalidade. 

Tenho amigos e pessoas que admiro espalhadas por todo o país. Cada dia que passa, conheço mais gente interessante e coleciono inúmeras histórias para contar. 

Durante essa semana em New York, várias pessoas vieram me falar do quanto gostariam de conhecer e viver no Brasil. Já tinha ouvido isso antes, mas dessa vez ouvi muito mais. Nos restaurantes somos surpreendidos com música brasileira que não é forró ou sertanejo universitário, nem pagode, nem axé music. Graças aos deuses,  só me perguntaram do Michel Teló uma vez e torço o nariz quando me perguntam sobre o Lula. 

Definitivamente  há lugar no meu coração para as três pátrias da minha alma. E o Brasil, mesmo que seja fundamentalmente um tipo bem baiano, é uma dessas pátrias. E elas convivem harmoniosamente em minha alma, sem lugar para a discórdia. E nem sei se terei que decidir, tal como Páris, pela mais bela algum dia. Mas se tiver que decidir, talvez o Brasil fique para trás.

Sim, porque tenho sentido, particularmente hoje, uma grande vergonha do meu país. Em minha "feicebucagem" matinal, uma amiga pergunta, mostrando um rol de apresentadoras brancas: "Será que a TV brasileira é preconceituosa?" e eu respondi-perguntando:  "Será que o povo brasileiro não é preconceituoso?" Até porque acho que somos mesmo.  Fiquei pensativo. Como podemos ainda ser tão escravos de valores mesquinhos, ainda construindo pessoas-robôs preconceituosas e intolerantes? Continuamos fabricando em nossos "Dantes", "Portos Seguros" e "Arquis" espalhados por todo o país, um bando de gente muito inteligente e muito higienista. Pensei em coisas indizíveis agora. 

Algumas horas depois, vejo a notícia de que a FIFA (puta que pariu, a FIFA!) proibiu a venda de acarajé nas imediações do Estádio da Fonte Nova em Salvador, na Copa do Mundo. Que lixo! Que vergonha. Não sinto vergonha da FIFA, mais uma instituição representante do poder capialista, que está mais interessada em vender "gentes" e seus royalties do que realmente realizar futebol. Tenho vergonha do governo brasileiro por aceitar tamanha dominação colonialista por causa de uma merda de Copa do Mundo. Tudo bem, dou um desconto; detesto futebol. Quero estar" milhas e milhas distante" dessa merda toda quando ela chegar.  Mas o que o acarajé, as baianas, Bahia, têm a ver com isso? Não é só o acarajé. São todos os ambulantes, com seus cachorros-quentes, suas pipocas, seus coquinhos e tapiocas. Morram, ambulantes, Ronaldinho, o bolo-fofo vai fingir que vai jogr futebol enquanto posa para a Nike. Vixi, agora tem também aquele gremlin do Neymar. 

E para acabar com o dia, mordendo as bolas da brasilidade, a Câmara Municipal de Piracicaba aprovou uma lei que proíbe as práticas das religiões afro-brasileiras na cidade, com direito a multa e tudo mais. Junto da Câmara, a Aliança para a Supremacia Cristã, a nova Santa Inquisição contemporânea. Há vários anos venho dizendo que tenho medo da ascensão desmesurada em escala mundial dessas igrejas e que serão elas as estandartes da repressão, da crueldade e do autoritarismo entre os povos. Será que ainda sobram lugares onde a tal "palavra" ainda não tenha chegado?

Espero que não chegue o tempo ou que morra antes dele, no qual terei que me esconder debaixo dos caracóis da Igreja Católica. Pelo menos já sou batizado. Espero que não precise ser obrigado a aceitar esse Deus tirano que me obrigará a desprezar as escolhas e os chamados da minha alma. 

Pobre Piracicaba, pobre e podre Brasil. Esse lado da vergonha, alheia e minha; esse lado que não é o esquerdo e nem o direito; esse lado dos fundos, da sola dos pés, das costas, do rabo do Diabo; esse lado me dá vontade de não estar no Brasil e nem de ser brasileiro. Esse lado me dá brotoejas e me faz vomitar. Esse lado me torna francês, jamaicano, senegalês, yorubá. Ativa meu arquétipo da Odete Roitman e me faz odiar e desprezar os tupiniquins que trocaram cocares por bíblias. 

"Nos deram espelhos, vivemos num mundo doente"
("Índios", Legião Urbana)