Blog do Doutor Fofinho

"Tudo começou há algum tempo atrás na Ilha do Sol..." Há muitos anos eu montei esse blog, dando o nome "Le Cul du Tabou", inspirado por uma amiga, para falar sobre o tabu das coisas. Ganhei muitos seguidores, mas desde 2018 não escrevi mais nele. Estou retomando, agora com novo nome, o "Blog do Doutor Fofinho", muito mais a minha cara, minha identidade. Sejam bem vindos.

Tuesday, January 26, 2010

AQUECIMENTO GLOBAL


Há quem diga que essa coisa de aquecimento global seja besteira, invenção de pessoas que não têm nada de útil a pensar. Mas creio que a maioria das pessoas nota que deve ser bem verdade. Eu não sei dizer se é aquecimento; o que tenho visto são diversas mudanças climáticas estranhas nos últimos anos.

São Paulo, minha terra natal, era conhecida por ser a “cidade da garoa”. Eu mesmo presenciei esse “garoísmo”, quase que diário acompanhado do frio matinal bem típico. Costumava-se dizer que vivíamos todas as estações do ano num dia só. Lá pelos meus cinco anos de idade, ganhávamos guarda-chuvas de presente de Natal. Não sei se isso era coisa da minha família ou também acontecia nas melhores famílias. E eu me lembro do meu primeiro guarda-chuva: preto, tamanho pequeno, com o desenho do Super Homem.

Hoje continuamos vivenciando todas as estações do ano num só dia, mas a garoa e o friozinho matinal é algo raro na Sampa de hoje. Yes, nós temos enchentes. É como se todos os pingos de todas as garoas do ano e de anos se juntassem num uníssono destroçar de casas, árvores centenárias e postes.

Num dia de inverno em Nova Iorque (detesto escrever assim!), o sol se abre incandescente e feroz, não apenas iluminando, mas realmente aquecendo Manhattan. Um dia de verão em pleno cruel inverno novaiorquino. Por um lado, as pessoas ficaram felizes, saíam pra passear de bicicleta, roupas cavadas, chinelos. Mas é muit estranho um dia escaldante nessa época.

Dizem que várias geleiras estão descongelando, lugares frios estão mais quentes e quentes mais frios. Um reboliço total.

Essa coisa do aquecimento global me fez pensar sobre outros aquecimentos, também globais: o aquecimento da economia, o aquecimento das panelas, o aquecimento dos ânimos. Temos visto crescer, cada vez mais, uma onda de intolerância, de impaciência em nossa vida social.

Quando eu era criança, e até na minha adolescência, era comum fazermos festas de aniversário às sextas e sábados e o barulho era “respeitado”: as pessoas sabiam tolerar o barulho do vizinho aos finais de semana, porque sabia que no outro poderia ser a sua vez de perturbar. As pessoas viajavam e faziam festas em sítios e podiam ouvir música alta até altas horas, porque ninguém iria reclamar.

Hoje é tudo diferente: aos sábados, mal deu meia-noite e o zelador do prédio já está ligando, pedindo para abaixar o som ou, pasmem, parar de dar risadas. O mundo realmente está cada vez mais fechado, mais intolerante e, consequentemente, mais triste. Agora é proibido dar risadas depois da meia-noite.

No último final de semana estive em Salvador. Linda cidade, lindas praias, gente acolhedora. Tive uma relação de amor à primeira vista no dia em que pisei em Salvador. O quarto do meu hotel tinha o número 2003, o ano em que estive lá pela primeira vez.

Como é verão, a cidade estava muito cheia de turistas de todos os lugares. Muito trânsito, muito barulho, fila pra tudo. Mas o que me deixou mais assustado foi a violência no trânsito. Pessoas dirigindo como loucas, de modo imprudente; buzinando impacientes a todo momento, xingando outros motoristas, batendo carros. E pior: não eram turistas, eram os próprios moradores! Em partes, dá pra entender; não deve fácil ter que agüentar, ano após ano, lotes e lotes de turistas ensandecidos, ver sua cidade mais suja, mais cheia, ter mais dificuldade para ir e vir. Mas tal comportamento me fez refletir e me deixou assustado, pois sinalizava que o tão conhecido sossego baiano está com seus dias contados. E isso pra mim representa uma das trombetas do apocalipse.

Como disse, isso não é um fenômeno baiano. Todas as pessoas, em todos os lugares do mundo, têm se tornado mais intolerante com as diferenças. Aparentemente, deveríamos rumar a um destino oposto; mas o que se vê é que a intolerância, a impaciência e as suas nefastas conseqüências vem ganhando vulto, dia após dia. E, quando essa onda de contaminação atinge a Bahia, fico deveras preocupado.

Não posso dizer que sou perfeito quanto a isso. Também sofro de impaciências e intolerâncias às vezes e estou sempre me policiando para aceitar as diferenças, criticar menos, compreender mais. Nem sempre sou bem sucedido: há diversas situações nas quais a irritação me causa brotoejas irreparáveis. Mas viver tem muito disso. Um constante aprendizado e repetidos ajustes. Adaptação, adaptação, adaptação.

Mesmo que os baianos não sejam mais os mestres de paciência de antes; mesmo que eles não saibam mais esperar; mesmo que eles tenham importado o “jeito paulista de viver”, xingando, buzinando, perdendo a calma e agredindo seus pares; ainda assim posso dizer que eles deixaram seu legado, deixaram seus ensinamentos, que ficarão pra sempre guardados em meu coração. Aprender a esperar o coco cair, refestelar-se de alegria e paz interior com o balançar das redes, degustar calmamente os aromas do vento que adoça a boca com o salgado-doce das maresias, curtir o momento lúdico de quebrar patas de caranguejo com martelinhos na praia, regado a cerveja gelada. Tudo isso e mais um monte de “técnicas”, um verdadeiro legado de sabedoria, um tratado de boa vida, de bem viver.

Talvez os chineses tenham nos ensinado a tirar proveito das piores situações. Os baianos me ensinaram muito mais que isso: aprendi a tirar o verdadeiro proveito das coisas boas e a valorizar as pequenas alegrias, como estas.

OS NOVOS SACIS


Embora minha infância não tenha sido totalmente boa, eu conservo alguns fragmentos, algumas memórias de coisas legais desse período. Acho que essas pequenas coisas foram “sachês” de vida que preservaram a minha existência e minha integridade psíquica.

Há uns dois dias ouvi no rádio a música “A novidade”, do Gilberto Gil. Eu gosto muito dessa música, mas ela me fez lembrar a música do Sitio do Pica-pau Amarelo. E o Sitio foi, sem dúvida, um dos instrumentos de preservação dessa integridade.

Lembro como se fosse hoje da Vovó Anastácia, da Dona Benta e todos os personagens reais e fantásticos que compunham aquele cotidiano. Aquilo fazia tão parte de mim, que era como se eu vivesse ali, com todas aquelas personagens. Por muito tempo carregava comigo uma caixinha de madeira, cheia de badulaques, que representava a canastra da Emília. Era a minha possibilidade de transmutar coisas, fazer o mal desaparecer e transformar a dor em riso.

Eu adorava os sacis do Sítio. Lembro do Saci-Pererê, o Saci-Matinta-Pereira e todos aqueles outros, brincalhões, arteiros, matreiros. Numa certa época cheguei a comparar os sacis aos Exus-mirins, pela sua capacidade de fazer traquinagens, pela irreverência e rebeldia.

E não era só na televisão que o Sítio me acompanhava. Lia gibis, tinha a obra completa do Sítio de Monteiro Lobato e cheguei a ter uma miniatura de pano do Visconde de Sabugosa. Lembro-me como se fosse hoje quando minha mãe contratou um Emília e uma Cuca para animarem minha festa de aniversário. Acho que a Cuca servia pra lembrar que o mal estaria sempre por perto...

Mas nesses últimos dias, essa imagem imaculada que eu tinha do Sítio foi vilipendiada. É como se um tsunami tivesse chegado lá e destruído tudo, naquele cantinho da minha mente que preservava tão vivida suas lembranças.

Ainda na minha peregrinação “filosófica-mística-repousística” em Salvador (Êta, Bahia que rende mais que cuscuz!), descobri que, mais recentemente, o crack está dominando a “cena”, como em vários lugares do Brasil e do mundo. Crianças, jovens, adultos, das classes mais miseráveis até a classe média, “tocando” seus dedinhos pretos e esfumaçados nos bolsos e gostos da classe rica, todo mundo tá na onda do crack.

Capoeira? Timbalada? Olodum? Que nada! “Gostoso” mesmo é tomar “pauladas” de crack, agachado no chão, encolhido de medo e paranóia, num beco, numa rua escura qualquer do Centro Histórico. E o povo apelidou de “sacis” esses meninos, em sua maioria negros, andando de um lado pro outro, pitando seu cachimbo.

Espalhados pela cidade, cartazes dizendo “Nunca experimente o crack. É uma droga que mata.” Quem vai ler isso? Será que os “sacis” sabem ler? Será que vão ler? Não creio. Dizem que se conselho fosse bom, ninguém dava de graça”, e acho que é bem verdade. Até porque acho que a maioria dos usuários, não lerão o recado. E quem ler, não vai acreditar.

Está faltando transcendência. Está faltando mística. O vazio e a falta de sentido nas coisas tomaram o lugar daquilo que realmente tem importância. Os “sacis” tomam suas pauladas diárias e ininterruptas; as madames consomem bolsas e grifes; os magnatas se refastelam em seus carros blindados, seus uísques de doze anos e seus charutos cubanos; as beldades consomem vorazmente seus anorexígenos, seus Bottox, seus implantes; os gordos se entopem de chocolates, sorvetes e macarrões.

Nessa alquimia de transformar cérebros humanos em retardados, de tanto fumar crack, o Sitio do Pica-pau Amarelo faliu. Quebrou. Que saci que vai achar graça num sítio, onde tudo é bom e mágico, onde as coisas são simples e, principalmente, não tem pedra? Nessa realidade cinza que vivemos, sobra apenas um tipo de “sitio”: o das casas de recuperação.

Sunday, January 24, 2010

SINAIS FRATERNOS


Fiquei cerca de três semanas de férias. Estava mesmo precisando, pois vários sinais de “burnout” já se manifestavam: irritação, sono ruim, um perceptível aumento da calvície, cansaço excessivo... Nos primeiros dias, o meu corpo saiu de férias, mas a minha cabeça não.


Ficava tendo pesadelos com o ambiente de trabalho, chefes me perseguindo, pacientes fazendo escândalos. Até o meu avião caiu no sonho. Mas acho que esse não foi pesadelo. O avião caindo, seguido da inevitável morte , simbolizou, para mim, a “morte” da minha mente. Ela finalmente havia aterrissado para que eu usufruísse de corpo e mente das minhas merecidas férias.

Descansada, ela passou a operar numa outra vibração, em outra radiofrequência. Passei a ter sonhos esquisitos, alguns com pessoas e ambientes desconhecidos. O que terá sido? Viagem astral? Interferência de sonhos de outrém? Sei lá. Só sei dizer que acordava bem, descansado, relaxado, como se tivesse assistido um filme e adormecido com a TV ligada enquanto ele passava.

Chegando ao final da viagem. Tive um sonho estranho. Ambientes e pessoas conhecidas. Eu estava num velório de uma pessoa que gosto muito. Acordei perplexo e as imagens do sonho vinham em minha mente o tempo todo, como se sonhasse acordado. Nesse velório, explicava às pessoas o que tinha “dado errado” com o morto. Explicava que não era culpa de ninguém, que ele era um espírito sofredor, de “pouca luz e compreensão” e que não fomos capazes de desviá-lo desse caminho tortuoso.

Já fora do sonho, pouco tempo depois, soube que ele não havia morrido, mas que estava passando por problemas e havia sido internado. Será que, do mesmo jeito que a queda do meu “avião mental” significou uma aterrissagem pra um recomeço, essa morte e, consequente “enterro”, podem significar um início, um recomeço ou o final de um problema?

Quando voltava para o Brasil, comprei um livro pra ler durante o vôo. Procurei, procurei e, quando havia quase desistido, encontrei uma edição resumida da obra de Jung, chamada “The Portable Jung” (O Jung portátil). Portátil, mas não inútil. As palavras dele penetraram na minha mente e, logo no início,quando o autor falava sobre o momento de “revelação” que Jung teve ao descobrir que queria ser psiquiatra, tocaram a minha alma. Lembrei de quando “descobri” a psiquiatria em minha vida e de como tudo, inclusive ter estudado medicina, passou a fazer muito mais sentido. Faz tempo que tenho recebido os “chamados” de Jung. Pessoas à minha volta se “convertendo” para a psicologia analítica, a presença marcante dos símbolos espirituais em minha vida e a compreensão da relação dessas coisas acontecendo sincronicamente têm me chamado a atenção há tempos.

Uma das coisas que mais me chamou atenção nessa precoce leitura foi quando Jung se sente “perdido” com toda aquela informação sobre mitos e como ele faria para correlacionar tudo isso com os fenômenos da mente. Ele descreve que passa a se preocupar com o reflexo dessa confusão no atendimento de seus pacientes e passa a evitas as interpretações, deixando que seus pacientes livremente “construam” esse significado. Ele compara essa construção de significado aos bloquinhos de prédios com que brincava na infância e de como ele era livre para criar, construir o que bem entendesse.

Isso me lembrou duas coisas da infância: quando eu brincava com Playmobil e construía casas enormes, misturando peças do próprio brinquedo e peças de outros e quando meu avô me levava para comprar ferramentas com ele e, a cada peça que comprava, me presenteava com uma miniatura idêntica. Já em casa, ele ia me ensinando, com muita paciência e carinho, a consertar as coisas, usando as minhas ferramentas, dando nomes a cada uma delas.

Jung fala que passa então apenas a observar essa construção enquanto se perguntava “qual era o mito que ele próprio estava vivendo e o que esse mito estava querendo mostrar a ele”.

Ainda no avião de volta ao Brasil,assisti um filme que já tinha visto antes, chamado “Viagem para Darjeeling”. Nele, três irmãos embarcam num trem na Índia, o Darjeeling Limited, numa viagem tramada por um deles, numa tentativa de reconciliação, através da busca de alguma experiência mística ou reveladora. Da primeira vez havia gostado muito do filme, mas acho que não havia captado a sua profundidade e fiquei mais preso aos eventos “engraçados” da primeira parte do filme. Mas é a partir de certo ponto, exatamente onde o filme perde bastante do colorido humorístico e ganha uma sobriedade e consequente profundidade, que as coisas começam a ocorrer.

Enquanto assistia o filme, pensei nas palavras de Jung, lembrei do “Daemon” de James Hillmann, pensei no enterro da pessoa querida. Fiquei pensando em Jung, nos mitos, na ligação com o filme, com meus sonhos, com os ciclos de morrer e nascer que têm ocorrido ultimamente. Acho que através de Jung, tive uma daquelas revelações que Freud chamava de insights tardios....

E creio que esse filme já se encontrava dentro de todo um contexto, no qual minha mente já discutia o “Arquétipo Fraterno”. Eis que minha amiga-irmã me presenteia, nas porteiras para uma viagem arquetipicamente fraterna, o livro “O Irmão – Psicologia do Arquétipo Fraterno”, do analista junguiano Gustavo Barcellos.

Acho que as diversas coisas em minha vida têm convergido ultimamente para um “beco com saída” que me faça olhar para a fraternidade. Não nesse sentido de caridade ao qual facilmente associamos a palavra, mas a essa coisa “horizontal”, das relações que estão ao meu lado, meus amigos, meus irmãos, meus “pares”.

Nessa “viagem” da vida, passei por muitas paisagens, cidades, coisas. Tive momentos em que joguei muita coisa fora para poder seguir mais leve; para me ferir menos; para acreditar que a dor era menos dor; enfim, subterfúgios de sobrevivência.

Agora, como Paulo, na Epístola aos Coríntios, naquele momento, via em parte e, se acaso visse tudo, tampava os olhos. Hoje, que “não sou mais menino”, olho o mundo, as coisas e as pessoas de um modo diferente. Chegou o momento de catar as malas que larguei pelo caminho. São pesadas, mas são minhas.

Nesse momento estou em Salvador. Sincrônicas sincronicidades, estive a primeira vez aqui em 2003. Amei a cidade, o mar, o cheiro, as pessoas. E muita coisa boa aconteceu em minha vida depois de Salvador. E hoje escrevo à beira da varanda de um quarto de hotel, de número 2003, para lembrar que o tabuleiro da Bahia está sempre pronto a oferecer suas dádivas, seus presentes em minha vida.

Wednesday, January 13, 2010

PETIT “BIGATÔ”


Era uma vez, num fabuloso e renomado hotel francês em São Paulo, à margem direita da Sena (Madureira...pra quem vai da 23 de Maio para a Domingos de Morais...)

Não, não é um conto de fadas. E de fábula, só o preço mesmo.

Domingo ensolarado e encalorado em São Paulo. E não temos o rio Sena para fazer piquenique. Nem temos Paris Plage. Paulistas entediados e recém chegados de férias fabulosas, resolvemos marcar um brunch para trocarmos abraços e beijinhos de Happy New Year. Como de costume, havíamos marcado o encontro no hotel do pai da Paris, mas como no Brasil tudo funciona pela metade, o restaurante estava fechado para reformas. Sim, eles ofereceram um “remedeio”: tomar brunch no balcão do bar... Talvez teria sido melhor.

Decidimos ir ao tal hotel francês. Amo a França. Amo aquele hotel e costumo ir frequentemente à pâtisserie deles para tomar café e comer croque monsieur. E, toda vez que entro no hotel, fico maravilhado com o tom austero e suntuoso da decoração e o cheiro de verbena espalhado pelo banheiro. Sim, o hotel todo cheira a L´Occitane. Mas nunca havia ido ao brunch. E tudo começou muito bem: muita champagne, ostras, camarões gigantes, pernil de cordeiro e capeletti de brie, alcachofras, mais champagne e... bigato!

Meu amigo pegou um lindo prato de salada com uma pêra recheada de verduras e legumes, toda espalhafatosa e aproveitou pra abusar das alcachofras. Pão com manteiga? Café com leite? Bolachas recheadas? Nada disso! O melhor desses brunchs é fazer “valer o preço” e comer tudo o que dá prejuízo!

Mas na salada do meu amigo tinha uma surpresa. Entre a pêra e a alcachofra, jazia um bigato. Sim, B-I-G-A-T-O! Aqueles bichos molengas que parecem minhocas, só que são mais nojentos. Quando crescem nas frutas, como o bicho-da-goiaba, chamamos de larvas; quando são aqueles que vão virar borboletas, chamamos de taturanas e quando se alojam no corpo nos animais no sítio, chamamos de “berni”.

No primeiro minutos, ficamos em dúvida: parecia o pedacinho final da perninha de um camarão. Mas minha amiga logo gritou: “Bigato! Garçom, tem um bigato na salada dele!”. E o esquadrão francês se aproximou em pânico. Sem pestanejar, catei o serzinho na ponta do dedo pra verificar. Era mesmo um bigato, mas faltava um pedaço dele. E meu amigo não sabia se já tinha comido ou não o resto.

O garçom perguntou se tinha vindo da salada ou da alcachofra. Puta que pariu! Que importa de onde veio? Importa para onde estava indo! Minha amiga informou que devia ter vindo da salada, pois “os bichinhos da alcachofra costumam ser pretos” e o garçom respondeu que “deve ter sido mesmo da salada, porque os da alcachofra eles já tinham tirado”. Puta que pariu again! Ele não devia estar lá! Então ele recolheu o prato, desculpou-se e se reuniu com o Maître.

Passados alguns minutos, veio educadamente oferecer se meu amigo queria um “outro prato”. Explicamos a ele que o mínimo que podiam fazer era não cobrar a conta da “vítima”. E logo veio outra “esquadrete” se desculpar e informar que ele não seria cobrado. Disse que estavam perplexos e que estavam mandando um email para a matriz na França, comunicando o ocorrido. Uma revolução francesa às beiras da Sena! Mas os únicos sacrificados foram meu amigo e o pobre bigatinho, o petit bigatô!

Sempre que isso acontece, surge uma reação defensiva e negatória de explicar que “ao menos o vegetal não tem agrotóxico”. Mas eu prefiro comer agrotóxicos, ficar cheio de toxinas do que comer um bigato. Muitos devem se perguntar qual a diferença, estamos lá comendo ostras e escargots. É como se eles fossem bigatos de smoking e gravata borboleta.

Creio que mesmo os mais aderidos e fissurados às ondas de comidas “orgânicas” (como se alguma comida fosse inorgânica) não devem curtir muito comer bigatos. Dizem que os cantoneses comem todo o tipo de cacarecos. Carrapatos, escorpiões, lesmas e bigatos. Mas eu não fui acostumado a comer bigatos.

A primeira vez que comi uma goiaba, um bigato saiu de dentro dela, esmagado pela faca. E o cheiro da goiaba, junto com a imagem do bigato esquartejado é tão forte na minha mente que basta eu sentir o cheiro de uma goiaba madura que já lembro “dele”. Virou uma assombração na minha memória. Engraçado é o quanto gosto de goiabada. Acho que por ter quase certeza que os bigatos estão todos cozidos e dissolvidos na meleca do doce. Tanto isso deve ser verdade que nunca encontrei um bigatinho sequer no meio de um Romeu e Julieta.

Eu sei que acidentes acontecem. Pode ser que o “laveur de légumes” (lavador de alfaces) não estivesse num bom dia. Brigou com a mulher, tomou um porre, dormiu mal, perdeu a hora. Cansado, chateado, refletindo sobre os impropérios que ouvira, nem percebeu aquele bigato que se escondeu no canto esquerdo da pequena folha de alface. Pode ser que ele tenha esquecido os óculos. Pode ser que ele tivesse ceratocone. Digo isso porque acredito que acidentes acontecem. Nem posso dizer que o evento estragou nosso brunch, porque todos nós continuamos na mesa, comendo e bebendo. Nem posso dizer que nunca mais voltarei ao hotel, tampouco ao brunch. E acho louvável quando a atitude profissional de alguém que atende as “vítimas”, sendo prestimoso e atencioso, faz toda a diferença.

Porque, por situações aparentemente menos graves, já deixei de frequentar “eternamente” certos lugares. Uma vez fui a uma famosa cantina italiana no Bixiga. Ela sempre foi muito boa, mas acho que decaiu e se transformou num “circo caro” a partir do momento em que a transformaram num enorme restaurante com funcionamento 24 horas. Queríamos comer polpetone. Quando vimos o cardápio, ficamos muito decepcionados, pois não havia o polpetone no cardápio. Além disso, os preços eram impraticáveis. E, durante quase meia hora que ficamos esperando e decidindo se comeríamos ou não lá e enquanto eu “animava” meus amigos a terem coragem de deixar a mesa, nenhum garçom se aproximou de nós.

Ao sairmos, o Maître veio atrás de nós e perguntou porque estávamos indo. Eu disse, educadamente, que o cardápio não havia agradado. Não queria reclamar, não queria discutir. Apenas deseja partir. E ele, fazendo um gesto com as duas mãos espaçadas, como se segurasse uma grande sanfona, perguntou: “O que não agradou foi o preço?”. E eu, no auge da minha putisse, agora deflagrada, fiz um gesto de “pinça”, com o indicador e o polegar, respondendo: “Não, foi a educação. E anote aí no seu caderninho que, por conta dessa indelicadeza, não volto nunca mais nessa espelunca!”

As falhas, assim como os problemas, vão sempre existir. O que importa mesmo, é como nos saímos deles. Outro dia um amigo publicou no Facebook uma frase cuja autoria é atribuída a Sarte: “O que você fez daquilo que te fizeram?”. É esse o lance. Transformar o “petit bigatô” num “bigatô d´Or”.

Monday, January 04, 2010

OS BRILHANTES ENSINAMENTOS DE MESTRE GOOGLE


Sim, a internet facilitou, de forma bem ampla, o acesso à informação sobre todo e qualquer assunto existente. Eu me divirto à beça procurando nomes de pessoas, filmes, novelas, sinônimos a todo tempo, encontrando explicações e respostas para todo tipo de pergunta.

Como sou um gourmet e gourmand, a internet facilita a minha vida para encontrar receitas, encomendar produtos, traduzir nomes de alimentos. Comidas e temperos de todo o mundo, acessórios, tudo, tudo, tudo, está disponível. Nesses anos todos de vida cibernética, só tem duas comidas que não consegui “executar”, porque embora estivessem disponíveis, acredito que os “segredos” não: como fazer bagels (aqueles pãezinhos judaico-americanos com um furo no meio) e pastrami... E não acho que deva ser por acaso que são iguarias judaicas...

No mundo do sexo e da pornografia é a mesma coisa: tudo, tudo está à venda, tem “cotações” e opiniões de pessoas que já adquiriram e até sites que fazem a pesquisa de preço. Se você vai comprar um vibrador, pode encontrar os comentários de vários clientes sobre as experiências com o produto.

E navegando pelo mundo “porn”, desvendei hoje mais uma curiosidade: os limpadores de cabeça de videocassete. Já faz tempo que não se usa videocassete, não é mesmo? Eu até vou ter que usar logo mais, porque comprei uns filmes antigos em VHS e vou ter que converte-los para DVD (só podiam ser filmes franceses, porque tudo o que é feito nos EUA já é feito em DVD...). Mas, na prática, quase nem lembramos que os videocassetes existiram. E pasmem! Hoje descobri um site de sadomasoquismo que vende frascos de limpador de cabeça de videocassete! Não entendi nada. No site não se explicava nada sobre qual é a relação do produto com as práticas sadô-masô. Aliás, a princípio, não sabia que o “head cleaner” era um limpador de cabeça de videocassete... Fiquei pensando: “Será um produto especial para limpar vibradores?”.

Logo Mestre Google e sua ninfa Wikipedia responderam. Na primeira busca, descobri que eram, na verdade, os tais limpadores de cabeça de videocassete. Daí minha Polianna interior perguntou” “Será que os head cleaners provocam alguma sensação de irritação ou dor, compatível com tais práticas?” Besteira Polly. Alguns “head cleaners” tem nitritos em sua composição, substâncias amplamente conhecidas no mundo gay como “poppers”! Geralmente inalados, provocam desde um “barato louco” até uma cefaléia e desmaios, mas, muito mais importante que o “barato”, é que, como potentes vasodilatadores, alargam os buracos, permitindo a entrada de materiais nunca dantes penetrados... Daí fechou-se (ou abriu-se) todo um (enorme) ciclo...

E daí foi uma loucura... Amazon, Buscapé, Ebay, Mercado Livre, Submarino... todo mundo vende limpadores de cabeçote...

Esse realmente é um assunto que liga o cu ao tabu....

Ainda não me deparei com algo que não houvesse resposta na internet. Minto. Tem uma coisa que nem o Mestre Google, nem a sua ninfa Wikipedia conseguiram explicar. E sozinho não sou capaz de compreender: sobre as citações “cibernéticas”. Quanto mais cresce o acesso à internet, mais crescem os besteiróis que relacionam frases, textos, citações a autores famosos. Geralmente o processo é a cópia da copia da copia...

Outro dia estava no trabalho e uma secretária, emocionada, observada um lindo “powerpoint” com um texto do “Drummond” e a música da cantora Simone no fundo.

“Olha que lindo, Doutor, fiquei até emocionada!”
“Quem escreveu?”
“Santos Drummond”
“O Pai da Aviação? Era escritor também?
E ela, com ares bibliotecários, acenou com veemência.
“Sim é ele sim”

Parei pra observar o “powerpoint”, que dizia: “Um corte
de cabelo arrojado...diferente?Um novo curso...ou aquele velho desejo de aprender a pintar... desenhar... dominar o computador... ou qualquer outra coisa...”

Corte arrojado? Dominar o computador? Um texto “bonitinho”, mas fácil de supor que não era, nem obra de Santos Dumont, nem de Carlos Drummond. Esfreguei o mouse-lâmpada e rapidamente Mestre Google informou que o texto pertencia a um livro de auto-ajuda de Paulo Roberto Gaefke. Num fórum, onde uma cretina qualquer mostrava a uma amiga “esse lindo poema de Drummond, o seu poeta predileto”, o autor rebate o elogio, solicitando que seja atribuída a autoria verdadeira....

Tenho um amigo que, de uns tempos pra cá, virou “zen” (natureba, naturopata) e desde então passou a incluir frases de efeito no final de seus emails. Paz, equilíbrio, sabedoria, saúde... Bullshit. Outro dia recebi um email dele, com uma citação chinfrim, atribuída ao Dalai Lama. Perguntei a ele:

“Tem certeza que é do Dalai? Onde está escrito?”
“É lógico que é dele.”

Mas não engoli. Mais uma vez importunei Mestre Google, mas dessa vez ele não respondeu nada. Nem que sim, nem que não. Não que o Dalai não escreva coisas chinfrins. Já li um livro dele e folheei alguns. Pra mim, ele é como se fosse uma “Global Zíbia”, dizendo coisas palatáveis, agradáveis e beeeemmm óbvias. Deixei quieto. Mas é dureza ver circular, alastrar, esparramar uma plantação de bobagens ditas atribuídas a alguma personalidade importante.

Às vezes, o feitiço vira contra o feiticeiro. Gosto de ler, gosto de saber e aprender e AMO minhas conferências com Mestre Google. Adoro desvendar mistérios, dos mais simples, como qual era o nome da atriz que fazia a Odete Roittmann, até os mais complexos, como a autoria desses embustes.

Mas outro dia, pesquisando coisas sobre Umbanda e Candomblé, descobri uma figura com todos os Orixás do Panteão Africano e, bem no meio, a seguinte frase: “Não acredito num Deus que não dance”. Achei linda a frase e, ao consultar o Mestre, ele respondeu: “Nietzsche”. Pasmei três vezes. Ricocheteei. Como alguém pode atribuir essa frase ao cara? Ainda pasmado, fui ironicamente comentar o “achado” com minha amiga ultra-erudita.

Pasmei cinco mil vezes mais. A frase é do cara sim! E ela sabia inclusive aonde estava escrito: “Se não me engano, deve estar em ‘Assim falava Zaratustra’. Fui, incrédulo, aos pés do Mestre. Ela estava certa. E ele dizia: “"Eu só poderia crer em um Deus que soubesse dançar”. Lógico: num contexto, na frase de um personagem. Não era um pensamento do próprio.... Só faltava descobrir que ele, além de crer em Deus, era macumbeiro...

Outro dia estava lendo o livro “The Golden Diary”, de Doris Lessing. Não conhecia nada dela, mas já tinha ouvido falar muitas vezes seu nome. Comprei o livro na Barnes&Noble, empolgado; uma edição nobre comemorativa do Premio Nobel de Literatura. Detestei. Na verdade, só gostei do prefácio para a ene-pi-fatorial edição. Nele, ela falava que deveríamos aprender a ler apenas o que gostássemos, do jeito que quiséssemos, aos pedaços, por exemplo. E foi o que eu fiz. Após algumas semanas me torturando para conseguir ler aquela “obra de arte”, lembrei-me do que ela dizia nesse prefácio e abortei a missão.

Então ela cita o exemplo de um estudante de literatura que a procura porque estava fazendo um trabalho sobre a obra dela e pede referencias de autores que falavam sobre ela. Ela diz: “E por que você não escreve coisas que eu penso e opina sobre essas coisas?”. E ele responde: “Porque o meu orientador diz que isso não é científico.”

Acho que é esse o problema. A falta de valores é tanta, a falta de cultura maior ainda. Desse modo, é preciso legitimar o pensamento através da imponência de grandes pensadores. E é claro que cada pessoa tem o grande pensador que merece, podendo-se valer de Sidartha a Chacrinha, de Sartre a Xororó, de Lenine a Lessing.